Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– E eu para obedecer-lhe, menti a meu pai; convidei-o para passear hoje à tarde, e na hora de sair queixei-me de um pequeno incômodo, e forcei-o com rogos a fazer o passeio só com minha sobrinha.
– V. Exa. é a mesma bondade!... disse o moço com insolente ironia.
– Oh! não! senhor; falemos seriamente; não há bondade da minha parte, nem polidez da sua. O caso é simples: aqui está um senhor e uma escrava.
A firmeza com que Mariana pronunciou essas palavras obrigou Salustiano a fazer um movimento de admiração.
– Porque, continuou ela, eu compreendo perfeitamente o que sejam as cerimônias, e as etiquetas em uma assembléia; mas quando se acham a sós, e cara a cara, duas pessoas que se procuraram adrede para tratar de uma questão cuja base, apesar de ser um segredo, é de ambos conhecida, para que, senhor, estar com vãs palavras encobrindo uma triste verdade?... para que vestir em belas roupas um horrível esqueleto?...
Mas enquanto Mariana assim se exprimia, retomara Salustiano seu sangue frio habitual, e já com seu insolente e costumeiro sorriso nos lábios, respondeu em tom de gracejo.
– É, minha senhora, que eu tenho minhas tendências para diplomata.
– Menos isso, senhor, tornou Mariana; pode sim um homem, imprevistamente dono do segredo de uma mulher, impor-lhe, por preço de seu silêncio, condições indignas; isso será apenas vilania... baixeza de alma; mas ridicularizar essa mulher, senhor?! oh já não é só vilania, é infâmia!
– Senhora! disse Salustiano.
– E preciso é que me conheça bem, que faça justiça a meu caráter. Se tenho tremido, se me tenho humilhado a seus olhos nas sociedades, é porque me curvo ante a pureza dos outros, e nunca porque dobre os joelhos ao seu poder. Quando estivermos sós, eu hei de conservar-me sempre na minha posição, alta, elevada muito sobre a sua; porque a vítima é sempre menos infame do que o algoz. A quem eu temo, a quem eu respeito, não é o senhor, é as almas nobres.
– Senhora!...
– Nada de falsas posições entre nós, continuou a viúva: o que somos ambos, ambos o estamos vendo. Eu sou uma mulher indigna, e o senhor é um homem baixo e vil. Suponhamos agora que nenhum de nós tem pejo, e falemos claramente um ao outro como dois sicários que tratam de um crime. Eis aqui como deve passar esta hora entre nós dois: creio que torno tudo muito fácil. O que quer o senhor de mim?...
Aquela mulher alta, bela, morena, de olhos cheios de fogo, orgulhosa e veemente, dava incrível força a suas palavras; com seu olhar ardente humilhava Salustiano, que ficou de novo espantado e em silêncio junto dela.
A viúva repetiu a pergunta que já havia feito.
– O que quer de mim, senhor?!
– Confesso, senhora, disse Salustiano, que não vinha preparado para uma conversação da natureza que parece desejar; todavia, pois que assim o quer, esforçar-me-ei por mostrar-me sem pejo, e falar-lhe como um sicário que com outro conversa sobre um crime.
– Bem; é isso mesmo: o que quer, pois?...
– Primeiramente quero saber quem é este mancebo que tão assiduamente freqüenta a sua casa, e a quem ouço dar o nome de Cândido.
– Sei que se chama Cândido.
– E mais nada?...
– E mais nada.
– Vamos mal, senhora; não vi, como desejava, satisfeita minha primeira pergunta; desvaneço-me porém de esperar que uma exigência, que agora farei, será completamente e cedo cumprida.
– E o que exige o senhor?... perguntou Mariana.
– Que as portas desta casa sejam fechadas a esse mancebo.
– Quem abre e fecha as portas desta casa a todas as pessoas não é a filha, é o pai.
Salustiano levantou os ombros e disse:
– Embora; eu o exijo.
Mordeu Mariana os lábios de despeito, e depois perguntou:
– E por quê?... e para que havemos de fechar as portas desta casa a esse infeliz moço?...
– Já o disse uma vez, senhora, porque eu o exijo.
– Oh!... e crê que há de ser humildemente obedecido, não é assim?...
– Tenho a certeza disso.
– Senhor! senhor!... exclamou a filha de Anacleto; não compreende que isso é já muito abusar?... oh! um cavalheiro zombando, insultando uma mulher, porque sente que ela não tem por si quem a defenda; que existe abatida com a consciência de um crime! Mas um cavalheiro deve sentir que quando chega a exaltação, quando mais não pode sofrer, quando enfim determina vingar-se, uma mulher vale o dobro de um homem; porque de ordinário o homem sabe somente matar, e a mulher sabe também morrer.
Salustiano começava a rir.
– O senhor se está aí rindo porque não sente que estas palavras pronunciadas
por uma senhora à face de um cavalheiro eqüivalem à maior das afrontas que um homem pode fazer a outro... mas deve rir-se... o senhor tem consciência de não ter generosidade nem honra.
Salustiano continuava a rir.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.