Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Eu não sei a que atribua o movimento que faz: para atribuí-lo a prazer... seria amorpróprio demais.
— É que a sexta quadrilha... eu... me havia comprometido...
— Eu aprecio a sua urbanidade; porém, é tão fácil fingir-se um engano... e depois com uma polida satisfação... ora, os senhores homens sabem às mil maravilhas como se faz isto.
— Se fosse possível ser uma outra qualquer...
— Senhor, eu poderia neste momento lembrar-me de ter ciúmes, se não devesse só recordar-me que já desci bastante de minha posição, guardando-lhe uma quadrilha!...
— Eu reconheço o obséquio que devo a V. Ex.ª
— E então?...
— Em todo o caso aproveitar-me-ei dele... não era possível que de outra forma procedesse.
— Por civilidade, não é assim?...
— Oh!... não: por um sentimento bem terno.
Alguns minutos depois Lucrécia estava outra vez sentada junto de Honorina.
— Então, minha bela menina, disse ela, como acha o sarau?... tem sido feliz nele?...
— Sim... sim, minha senhora; tenho passado uma noite bem esquecida de mim mesma... — É uma compensação, porque acredito que muita gente só se tem ocupado em admirála.
— Minha senhora... eu não posso merecer...
— Ora... ora... aposto eu que tem dançado todas as quadrilhas, que não tem perdido uma só valsa?...
— É verdade; mas creio que também a senhora...
— Não... deixei de dançar a segunda quadrilha; estes homens!... acreditará que estes mesmos senhores, que tantas lisonjas nos dizem, que tantos elogios nos fazem, se aproveitam de tudo para atormentar-nos?...
— Mas a senhora parece ofendida.
— Não, eu os desprezo; porém, quero preveni-la: sabe como aqui se fere o amor-próprio de uma mulher?...
— Não, minha senhora; eu nunca freqüentei saraus.
— Pois bem: o homem que quer demonstrar a uma senhora, que aquela que ele ama é superior a ela, convida-a para certa quadrilha, e quando chega esta, deixa a senhora ficar sentada, e vai dançar com a que ama!
— Isso quando feito de propósito deve julgar-se um insulto!
— Pois eles o fazem!...
Lucrécia pôs fim à sua conversação aí: tinha aguçado um punhal, que deveria ferir o amor-próprio de Honorina no momento de se dançar a sexta quadrilha.
XIII
O chá
O chá começou a servir-se às dez horas e meia da noite: a hora do chá é nos saraus a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe são muito peculiares. Compreender e ouvir para relatar tudo o que então se passa e se diz, seria operar o milagre que não esteve no alcance dos arquitetos e operários da torre de Babel. É certo que ali não se grita, nem se amotina ninguém; mas há em compensação mais de cinqüenta homens que conversam, e outras tantas senhoras que falam todas ao mesmo tempo... e tanto basta.
Brás-mimoso tirava então o seu ventre da miséria; no meio de meia dúzia de moças, nenhuma das quais tinha mais de vinte anos, ele, que tinha embora escondidos cabelos de avô de todas elas, se apresentava com cara e pretensões de priminho de qualquer das seis.
É preciso fazer sentir, antes de ir por diante, o erro em que estão certos sujeitos que, supondo enganar o mundo, enganando a natureza, não enganam senão a si próprios. Para todas as idades, como para todas as condições, há um quadro com duas faces; uma oferece o belo, e a outra o feio, que lhe deve caber. Na boa face de seu quadro tem o velho os respeitos, as considerações, as honras, que todo o mundo bem-educado lhe deve e lhe vota; e o velho, que se quer fazer passar por moço e gamenho, perde o belo de seu quadro e fica com o feio em ambas as faces dele. Pois Brás-mimoso não se dava com isso: espartilhado, todo no rigor do tom, com sua bela cabeleira de cabelos pretos; gamenho com rugas na face, engraçado sem sainete, vaidoso sem mesmo saber de quê, perseguia as moças como... como... tantos outros.
Ele investiu para aquela interessante meia dúzia de tentaçõezinhas com seis balas de estalo nas mãos; era o seu mar de rosas!... no entender de Brás-mimoso, a invenção das balas de estalo era o último apuro do engenho humano.
As moças, assim que o viram, começaram para logo a beliscar-se e a trocar segredos e meias risadinhas. Ora, essa espécie de cabala, nelas é sempre denunciada por um risozinho engraçado, do qual todo o homem, que conta em si uma oitava de juízo, tem mais medo do que da mais estrepitosa trovoada; porém, Brás-mimoso não se dava muito com aquilo; também parece que a natureza, quando tivera de assoprar juízo na cabeça do jovem qüinquagenário, se achava com veia para a homeopatia.
Pobre do meu Brás-mimoso! ei-lo com elas! um velho namorado no meio de seis gênios de graças e travessuras.
— Senhora D. Adelaide, disse Brás-mimoso, venho rogar-lhe que estale uma bala comigo... oh! será um estalo misterioso!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.