Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Falsidade!... não foi... O homem não mentia; nem tu, Ângela, permitirás que a nossa Joana desminta teu defunto marido – objetou ele, sorrindo às inquietas visagens da viúva. – E continuou: - Como hei de eu entrar num segredo que teu marido não penetrou com toda a sua policia administrativa e espionagem de amigos! Não ouso, minha amiga, pedir-te a confidência... Teu marido queria morrer convencido que o seu ouro andava por mãos de quem lhe disputara e vencera a alma da esposa. Parece que o homem não se dispensava desta ignorância para poder alegá-la nas contas dadas ao juiz que via as tuas lágrimas, minha santa amiga. Eu, porém, não consenti que ele se prevalecesse da sua ignorância, e jurei, pela minha honra, que tu deras de esmola 1.650$000 réis. Mas o que tu davas de esmola, nas mãos do beneficiado, chamava-se roubo em relação a teu marido, que era o senhor do objeto esmolado. Fui roubado – poderia ele dizer ao juiz supremo. – Minha mulher estaria inocente quanto aos deveres de esposa; mas, como parte do meu ser mercantil, defraudou-me em 1.650$000 réis – quantia que ele tinha gravado ao cérebro com letras de betume ardente. Ora, supondo mesmo que tinhas sido roubada, por quem quer que fosse, e iludida em tua ardente caridade, Ângela, restava-lhe a ele a possibilidade de uma restituição que, afinal, dilucidasse o mistério da tua inocência. Com o propósito de lhe criar esperanças de ainda ser embolsado, contei-lhe eu, Joana, a história daquele dinheiro, que te foi restituído, quando tu nem o esperavas, nem tinhas remoto conhecimento do roubo. Na minha história havia a singular coincidência de ser a restituição do teu roubo igual à quantia de que o meu doente se queixava. Notável semelhança: 1.650$000 réis! Dando-se, de mais a mais, a estranha coisa de ser ele roubado ao mesmo tempo que tu eras indenizada, minha irmã! E não para aqui a coincidência! Os brilhantes eram vendidos por quantias iguais àquelas que tu ias recebendo, e na mesma ocasião, do tal sujeito de Viana, honrada pessoa que eu nunca cessarei de proclamar, apesar do incógnito!... Por que estás tu a sorrir, Joana? E tu, Ângela, que ar é esse de assombro e alvoroço?... Não querem ouvir o melhor da passagem? Um dia, estava teu marido a contar, provavelmente, as dúzias de contos que lhe alvoejavam com asas de ouro à volta do leito, onde havia de morrer sozinho, blasfemo, e abrasado de sede, sem amigo ou indiferente que lhe apagasse nos beiços o brasido da morte; um dia, vinha eu dizendo, aproximou-se dele um homem e disse: “Venho restituir-lhe 1.650$000 réis que lhe foram roubados por sua esposa para me dar a mim, que era pobre. E eu com o seu dinheiro fiz a minha posição de menos pobre. A restituição é um dever que complica dois grandes resultados: um é o Sr. Hermenegildo morrer com a certeza que deixa, além de duzentos e tantos contos, mais esta quantia aos seus amigos; a outra é ir vossa senhoria por onde quer que vá com a certeza de que teve a ventura de casar com uma senhora que podia roubá-lo e traí-lo; mas que se limitou apenas a privá-lo, por espaço de alguns anos, da deleitosa posse destas nota. Porém, como o Sr. Fialho infamou sua esposa, convém que a declare ilibada, não só do desvio do ouro, mas também da dignidade conjugal. Para o que se faz mister que leia e assine este recibo”. E teu marido, minha amiga, leu, recebeu o dinheiro e assinou isto que tu vais ler, se te não custa.
E a viúva e Joana leram mentalmente a quitação que o leitor conhece.
Quando terminou a leitura, Francisco, ajoelhado aos pés de Ângela, beijava-lhe as mãos, exclamando coberto de lágrimas:
― Eu te agradeço, filha da minha alma! Bendita sejas tu, escolhida de Deus para mensageira de sua misericórdia!
E Ângela, baixando a face até aos lábios dele, murmurou:
― Meu santo e nobre coração!...
XXIII OS HOMENS HONESTOS
Seis meses depois, Atanásio José da Silva, Pantaleão Mendes Guimarães e Joaquim Antônio Bernardo, reunidos na famigerada bodega do Maneta do Reimão, onde em certos dias iam sevar-se na pescada e cebolas, bodo peculiar daquela taverna, praticavam do seguinte teor:
― Acertamos ou não?... – dizia Atanásio. – Viram vocês como afinal tudo se descobriu? Não, que certos lorpas inda diziam que o adultério da tal Sr.ª Ângela não estava provado... Aí a tem agora casada com o sujeito... E nem deixou passar um ano sobre a morte do marido, percebem vocês?
― Pois isso estava claro física e moralmente falando – obtemperou Joaquim Antônio. – O mariola era um estudante de cirurgia, segundo ouvi contar. Olha se o Hermenegildo não tem as coisas seguras, que lá se regalava agora o troca-tintas com bem bom dele! E dizia aqui o nosso Pantaleão, quando veio a notícia da morte do nosso amigo, que se procurasse a viúva, e se lhe desse alguns contos de réis! Parece-me que o marido se levantaria da cova, se tal fizéssemos!
― É que eu – explicou o marido de Francisca Ruiva – ainda cuidava que ela teria feito a sua asneira, e que se tivesse arrependido; mas à vista do que acontece, nem um dardo! (E descendo a voz, continuou) : Ó amigo Atanásio, aqui entre nós, seu primo do Rio é que a fez limpa! Sem trabalho nenhum, nem risco, nem nota de ladroagem, pilhou os seus quarenta contos fortes... Apre que é ladrão, e perdoe você por ser seu parente...
― Que queriam vocês? – desculpou-se Atanásio – eu incumbi meu primo do negócio porque não via pessoa mais hábil, percebem vocês? Cuidava eu que ele entregaria os títulos acomodando-se com uma pechincha de meia dúzia de contos: mas vocês bem viram a carta dele. Ou me dão quarenta contos, ou entrego os títulos à viúva ou herdeiros de Fialho. Que fazer? Ou dar os quarenta ou perder duzentos. Vocês concordaram, e eu paguei.
― E os outros seis contos que você deu ao marido da Rosa Catraia? – perguntou Pantaleão.
― Não que esse, como era criado do quarto de Hermenegildo e sabia ler, tinha visto os títulos quando andava à carta das notas e mais a bêbada da moça, percebem vocês? E depois viu que eles desapareceram, e começou a dar à língua; de maneiras que não houve remédio senão meu primo fazer cambalacho com ele, e mandá-lo para mim com uma carta, que vocês viram, e também concordaram em que se pagasse.
― Querem vocês saber uma? Adivinham quem ontem esteve no baile da Assembléia? A tal Rosa Catraia! – disse Joaquim Antônio.
― Ora que novidade você me dá! – acudiu Atanásio. – Fui eu quem lhe arranjei a carta de convite.
― E estava rica a valer! – acrescentou o marido da maiata. – E boa mulher?! O maroto do Fialho tinha gosto!
Quantas lhe conheci eram todas de sola e vira!
― Pelo que vejo a Rosa soube-se arranjar bem!... – observou Pantaleão.
― Ora!... – conveio Atanásio. – eu dou-lhe trinta contos fortes pelo que ela apanhou. Só os brilhantes da Ângela valiam mais de cinco contos.
― E ela lá os tinha no baile, que eu bem lhos conheci... – confirmou o mesário da santa casa.
― Também é escândalo demais! – censurou Pantaleão. – Apresentar-se em público com os enfeites da mulher do amo. A minha vontade era espalhar isso...
― Caia nessa você – contradisse Atanásio – e depois queixe-se, se o marido contar que viu na carteira do Fialho um título seu de dívida de cinqüenta e dois contos... percebe você?
― Fale baixo, diabo! – acudiu o ladrão pundonoroso. – Você não sabe que anda aí gente pelo quintal?!
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.