Por Lima Barreto (1922)
Com um Almotacé-mor da cidade, deu-se um caso quase semelhante. Este arconte tinha nascido na província dos Bois, e, apesar de viver desde há muitos anos na capital da Bruzundanga, pouco a conhecia. Quando foi provido no seu cargo, quis fazer em horas o que não havia feito em anos.
Tomou o automóvel oficial (certamente) e mandou tocá-lo para os arredores de Bosomsy. Admirou-se muito de que não houvesse por eles, matadouros de gado bovino, pois nos da sua pequena, pequeníssima cidade natal, os havia em quantidade. Não viu senão essa falta e deixou de ver as terras abandonadas, incultas, as estradas esburacadas, terras em que um bom Almotacé ainda podia, com proveito, animar o plantio de árvores frutíferas, hortaliças, legumes e a criação de pequeno gado, na zona rural.
Com essa decepção na alma, pois não podia admitir que uma cidade não tivesse nos arredores matadouros, para o fabrico da carne salgada, resolveu certo dia visitar as dependências da sua repartição. Chegou ao arquivo. O arquivista, que era zeloso e conhecia bem a história da cidade, prontificou-se a mostrar-lhe os documentos curiosos da vida passada da linda capital:
— Vossa Excelência vai ver as atas das sessões do Senado da Câmara, que...
Eram documentos escritos dos mais antigos, não só da história da cidade, como da do país inteiro; mas o Almotacé, com grande surpresa de toda a comitiva, exclamou amuado:
— Como? O quê?
— ...as atas do Senado da Câmara, Excelência.
— Qual! Senado é uma cousa e Câmara é outra. Como Senado da Câmara? Que embrulho? Cada um se governa por si... A Constituição...
— Mas...
— Não tem mas, não tem nada. Mande o que é do Senado, para o Senado; e o que é da Câmara, para a Câmara.
Um grande filósofo afirmou que, para bem se conhecer uma instituição, uma ciência, um país, era necessário saber-lhes a história; e ninguém, penso, pode admitir que se possa administrar bem qualquer coisa sem a conhecer perfeitamente. Os administradores de Bosomsy nada conhecem, como já disse, da cidade, cujos destinos vão reger e cuja vida vão superintender. Exemplifico.
Um Prefeito de polícia, como lhes contei, não lhe conhecia a rua principal; e um Almotacé-mor, encarregado da administração geral do município, não lhe conhecia a natureza de suas produções nem a sua história, como ficou contado. Ele não sabia que a antiga Câmara dos Edis chamava-se — Senado da Câmara.
Como estes muitos outros se repetem na administração da capital.
Via eu todos os dias passar na rua principal de Bosomsy um sujeito cheio de imponência e ademanes fidalgos; perguntei a um amigo:
— Quem é aquele? É algum duque? É marquês?
— Qual! E um tabelião.
"O Senhor F. de Tal, redator da Warkad-Gazette, contratou casamento com a Senhorita Hilvia Kamond, filha da viúva Almirante Bartel Kamond", informava um jornal.
É caso de perguntar: que diabo de cousa é esta — "viúva almirante"?
Por que a noiva não é logo e simplesmente filha do falecido almirante?
— Quem é aquele sujeito que ali vai?
— Não lhe sei o nome. Sei, porém, que vive muito bem e é o marido da Klarindhah.
— O doutor Sicrano já escreveu alguma coisa?
— Por que perguntas?
— Não dizem que ele vai ser eleito para a Academia de Letras?
— Não é preciso escrever coisa alguma, meu caro; entretanto, quando esteve na Europa, enviou lindas cartas aos amigos e...
— Quem as leu?
— Os amigos, certamente; e, demais, é um médico de grande clínica. — Não é bastante?
Sobre o teatro
Tendo lido na Warkad-Gazetre uma notícia elogiosa da estréia da revista "Mel de Pau", no Teatro Mundhéu, lá fui uma noite. Quando entrei já o espetáculo tinha começado e uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava ao som de uma música roufenha:
Eu hei de saber
Quem foi aquela
A dizer ali em frente
Que eu chupava
Charuto de canela.
Por aí os pratos estridulavam, o bombo roncava e a orquestra iniciava alguns compassos de tango, ao som dos quais a dama bamboleava as ancas. As palmas choviam e, quase sempre, a cantora repetia a maravilha, que tanto fazia rir a platéia.
Na noite seguinte, passando pelo "Harapuka-Palace", li no cartaz:
"Todo o serviço", revista hilariante, em três atos, etc.
Entrei. No palco uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava acompanhada de uma música rouca:
Eu hei de saber
Quem foi aquela
A dizer ali em frente
Que eu chupava
Charuto de canela.
Acabando os pratos eram feridos, o
bombo trovejava, a música inteira iniciava uns compassos de "maxixe"
e a dama, com as mãos nos quadris, bamboleava as ancas. Risos, palmas e o
portento era repetido.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.