Por Lima Barreto (1911)
Se uns chamavam-no de inteligente, os outros diziam-no gênio; se Numa qualificava-o de grande estadista, Salustiano arengava em algum lugar e aclamavao o primeiro estadista do mundo. Não quer dizer que não houvesse quem visse nítido em tudo isso. Além da opinião, havia mesmo na política gente com alguma vergonha que não se entregava a tais excessos de bajulação; porém, os prudentes que estavam o poder e os republicanos puros que sonhavam realizar integralmente o regime, entregavam-se a essa luta para divertimento das arquibancadas e fortificar a convicção de Bentes.
Todas as qualidades que até ali tinham indicado o valor dos homens de Estado foram negadas; e as doutrinas mais absurdas foram espalhadas sobre o governo dos povos. Omar invadia o Egito e mandava queimar a biblioteca de Alexandria; e os escribas que dormiam nas tumbas, puseram a cabeça fora delas e olharam com o seu olhar de esmalte, a desmoralização da arte que tinha feito os eu encanto e os progresso dos homens. Choraram mais ainda, quando lhes afirmaram que eram o demótico e mais caracteres da escrita que fizeram a infelicidade dos povos.
Abaladas as noções mais estáveis, nesse pugilato de bajulação, não sabiam como se conduzir os adeptos do futuro presidente. Ainda não o era efetivamente, mas já todos o consideravam assim e foi graças a seu esforço que Xandu, Raimundo Costale, foi afinal empossado no Ministério do Fomento Nacional.
Xandu era rico e tinha, como todos, a sua vaidade. A dele era julgar-se com o estofo de grande ministro e o seu erro vinha em supor que o seria fecundo em obras, por espalhar decretos a mancheias. Pretendia fazer isto e aquilo; apanhava inspiração na boca de parentes, de amigos e punha toda a sua esperança na legislação. Não há dúvida que ela pode influir; ele exagerava, porém, o seu alcance e os seus resultados. Feito ministro, o seu primeiro trabalho foi instalar luxuosamente a sua secretaria e gabinete; cortinados, sanefas, mobílias, bustos, quadros — tudo ele colocou do maior luxo. Em seguida, espalhou o seu retrato e biografia pelos jornais e revistas, especialmente por essas pequenas revistas pouco conhecidas e lidas.
Há de parecer que são sem valor as publicações feitas nelas; entretanto, assim não se dá. Oferecidas gratuitamente, elas correm maior área e chegam aonde as grandes publicações não chegam. O que perdem em intensidade, ganham em extensão; e os propagandistas políticos sabem bem disso porque não as desprezam. A fisionomia de Xandu, lavada, simpática, parada, com o seu olhar crédulo por detrás do monóculo, correu mundo em “clichés” de todos os tamanhos, com biografias auxiliares em todas as línguas. S. Exa. fomentava.
Bogoloff soube da nomeação de Xandu por intermédio do seu hospedeiro. Lucrécio ainda não estava colocado, mas tinha, sob o título de agente de polícia extranumerário, uma gratificação mensal que lhe dava para ter em dia o aluguel da casa. Parecia que devesse ter obtido colocação melhor; os seus protetores, porém, não julgaram a ocasião propícia e fizeram-no “encostado”.
Aí, ele podia com mais liberdade prestar-lhes os seus serviços de popular e, sendo lugar provisório, não lhe viria uma frouxidão inqualificável no seus entusiasmo pelas altas qualidades administrativas deles. Contudo, esperava firmar-se e não havia esquecido de sua promessa a Bogoloff.
Moravam ainda na mesma casa da Cidade Nova e era hábito almoçarem juntos antes que as outras pessoas da família o fizessem. Tendo de onde tirar o dinheiro, o primeiro cuidado de Lucrécio foi por o filho na escola e o pequeno raramente o via nos dias úteis da semana. O serviço do pai não era marcado. Aparecia na polícia e demorava-se por lá, à espera que houvesse um “meeting”, um discurso subversivo na Câmara, para perturbar as aclamações espontâneas e desinteressadas. A mulher e a irmã continuavam a temer semelhante espécie de emprego; Lucrécio, porém, as sossegava dizendo:
— Minhas filhas, é assim que a gente se arranja. Tudo está nas mãos dos políticos e, sem política, ninguém vai lá. O Candinho não está agente da Prefeitura? Como começou? O Totonho, não foi feito jardineiro-chefe? Ele há de me arranjar.
A fortuna de Totonho seguiu-se a do seu protetor Campelo, o Dr. Campelo. Não tendo sido possível dar a este um lugar de deputado, foi feito professor de meteorologia da Escola de Agricultura e diretor das Fundições da Ponta da Areia.
Era bacharel em Direito, advogado sem renome, mas dispunha do bando de Totonho, que influía nas eleições da Lapa. Esse bando tinha uma existências duradoura e aliava-se a este ou àquele candidato, por mais ou menos tempo, às vezes desinteressadamente, conforme a fé que tinha na lealdade deles. Nem todos mereciam-lhe essa consideração de candidato. Uma das condições era ser bacharel, advogado, relacionado na política e fora dela, garantindo proteção para casas de jogo, para delegados e para absolvições.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.