Por Aluísio Azevedo (1895)
- E se nisso estiver empenhada a minha vida, a minha felicidade e talvez a minha reabilitação?
- Paciência!
- É a tua última palavra!
- E peço-te licença para sair.
- Não dou.
- Mas é preciso.
- Não quero. Aqui mando eu!
Teobaldo experimentou as portas; estavam todas fechadas por fora.
- É então uma violência? perguntou ele, afetando bom humor.
- É, respondeu a cortesã.
E, tornando a direção da alcova, acrescentou com um sorriso:
– Vem.
X
Só no dia seguinte, as 2 horas da tarde, foi que ele saiu da casa de Leonília.
Sentia-se aborrecido e como que importunado por uma espécie de remorso: afigurava-selhe que em torno daquele seu desleixo pela vida girava um mundo de atividade dos que trabalham para comer, dos que labutam desde pela manhã. Pungia-lhe a idéia de haverse deixado arrastar por uma mulher, cujo amor seria para ela uma virtude, mas para ele nada menos do que uma depravação moral.
Ao chegar ao centro da cidade, o movimento comercial das ruas, o vaivém das classes laboriosas, ainda mais lhe agravaram a consciência da sua inutilidade e da sua inércia. - Por que, perguntava consigo, não pertenço ao número desses que trabalham, desses que sabem ganhar a vida?
E arrependia-se de ter ido ao Lírico, de haver oferecido de beber a Leonília, em vez de a tratar com frieza, o que afinal seria digno de sua parte. E vinham-lhe de novo os ímpetos de reação e um grande desejo de atirar--se a qualquer trabalho produtivo e honesto.
- Mas, por onde principiar? Onde e em que descobrir ocupação? Fazer-se professor?
Isso, porém, era tão precário, tão maçante e tão subalterno... Empregar-se na redação de um jornal? Mas em qual? e como? a quem devia dirigir-se?
E daí não passavam as íntimas reclamações do seu caráter.
Às vezes, à mesa dos cafés, dizia ele aos companheiros:
- Homem! Vejam se me arranjam um emprego!... Eu preciso trabalhar! É preciso viver, que diabo!
Mas estas palavras caiam por terra, sem aparecer quem as erguesse. O que aparecia eram novos e novos convites para tomar alguma coisa - para jantar em companhia de mulheres suspeitas e para assistir a espetáculos bufos. O Aguiar, principalmente nunca o a abandonara com as suas franquezas de moço rico e com os seus eternos protestos de estima e admiração.
E Teobaldo topava a tudo, considerando interior mente, para se desculpar, "que não seria metido em casa que ele havia de descobrir arranjo; precisava furar, ir de um lado para outro, até achar o que desejava".
E, visto que aceitava esses obséquios, apressava-se a retribui-los, quando porventura lhe caía de Minas algum dinheiro, sem reservar nenhum para os seus credores.
Por várias vezes, em ceias fora de horas, depois de enxutas algumas garrafinhas de Chiante e Malvasia, que eram os seus vinhos prediletos, os amigos de Teobaldo, na febre dos brindes, faziam-lhe grandes elogios ao talento e à educação; e ele, coitado ouvia tudo isso já com uma certa amargura, porque ia cada vez mais se convencendo de que lhe faltava a competência para ganhar a vida. E, quando, pelas três ou quatro da manhã conseguia chegar à casa tinha a cabeça em vertigem e o coração estrangulado por um desgosto profundo.
A casa! que suplício para ele... Como tudo aquilo que respirava a presença do Coruja lhe exprobrava silenciosamente as suas culpas. Era aí que Teobaldo mais sentia o peso brutal de própria nulidade; era aí, já recolhido aos lençóis, que ele considerava, um por um, todos os seus passos na vida. E excitado, cheio de revolta contra si mesmo, levava longo tempo a virar-se de um para outro lado da cama, antes de conseguir pegar no sono. Na manhã seguinte acordava muito prostrado, sem ânimo de deixar o colchão e, ainda de olhos fechados, chamava pelo moleque.
Quase sempre, em vez do Sabino, era o fiel Caetano quem acudia ao seu primeiro chamado, e, enquanto Teobaldo se preparava defronte do toucador, o pobre velho o observava com um profundo olhar de comiseração.
Depois, meneava a cabeça, suspirando, e punha-se a escovar a roupa que o rapaz tinha de vestir.
Teobaldo às vezes batia-lhe carinhosamente ao ombro, dizendo:
- Como tudo isto mudou, hein, meu velho amigo?... Como tudo isto é tão diverso dos nossos bons tempos!...
O criado então levava os olhos à manga de sua velha libré, que nunca mais fora reformada depois da morte do barão e entre lágrimas falava neste para desabafar.
Teobaldo perguntava sempre a que horas saíra o Coruja.
- Às seis da manhã, respondia invariavelmente o criado.
E os dois conversavam um pouco; depois Teobaldo descia ao banheiro, que era no primeiro andar. Banho, café, vestir e leitura dos jornais nunca se liquidava antes do meiodia. Por almoço tomava em geral dois ovos quentes, um cálice de vinho; feito o que, saia logo, sem destino, à procura de tal colocação.
* * *
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.