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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Ela não o quer, continuou Leonardo; disse­me com franqueza. A mim, como homem de juízo cabe­me, todavia, evitar qualquer conseqüência má do passo imprudente que o senhor acaba de dar. No fim de contas, não tenho obrigação de explicar as minhas intenções; elas são conhecidas já da família de minha noiva. É a essa família que o senhor se deve dirigir para denunciar o que acabou de colher da sua espionagem. Boa noite, meu caro senhor!

E, dizendo isto, Leonardo afastou­se rapidamente.

Gabriel voltou ao carro, e entre soluços de dor e de cólera contou a Gaspar o ocorrido.

— Nada disso me surpreende. Era caso previsto. Creio que agora mudaste de intenção a respeito de Ambrosina...

— Amo­a cada vez mais!

— Ora! isso já passa de loucura!

— Talvez, mas é a verdade!

No dia seguinte, Gabriel leu, por um prisma de lágrimas, a participação do casamento de Ambrosina, que ela própria lhe remetera.

Seria efetuado daí a dois meses, fora da cidade.

XVIII

A SIMPÁTICA EUGÊNIA

Vamos refluir ao ponto em que este romance principiou, vamos penetrar de novo na bela chácara em que se fez o malogrado casamento de Ambrosina; vamos, finalmente, saber o que sucedeu às cenas da loucura de Leonardo.

Mas, antes disso, antes de fecharmos este grande parêntese, cumpre esclarecer o leitor sobre os últimos acontecimentos que procederam àquela situação.

Resume­se tudo em poucas palavras:

O coronel, depois de alguns dias de prostração, expirou nos braços do filho, ao lado de Gabriel e de Alfredo. O pobre velho não foi abandonado nos seus últimos momentos, sacramentou­se, fechou os olhos com a fisionomia banhada na mais doce resignação, e a alma tranqüilamente ungida pela consolação religiosa.

Morreu como um justo.

Gaspar, pouco depois, propôs a Gabriel uma viagem à Europa. Gabriel consentiu, contanto que assistissem primeiro ao delongado casamento de Ambrosina; o outro protestou, mas afinal teve de ceder, porque o enteado não desistia uma polegada do seu intento.

— Repara que é uma tremenda loucura o que tencionas fazer, Gabriel! Lembra­te de que, um vez casada Ambrosina, nada mais tens que esperar dela!

— Deixa­me! respondeu insolitamente o moço. Faze tu se quiseres a tal viagem; eu, haja o que houver, irei ao casamento!

— E prometes partir comigo logo ao depois?...

— Prometo.

— Palavra de honra?

— Palavra de honra!

— Bem, nesse caso eu te acompanharei à casa do comendador.

A festa foi extraordinária. A casa destinada aos noivos era uma bela chácara, que se prestava admiravelmente aos caprichos do gosto e às fantasias da bolsa. Leonardo, sofrivelmente rico, não olhou despesas; o comendador, por outro lado, procurou dar o maior brilho ao casamento da filha.

E tudo saiu muito à medida dos seus desejos. Foi enorme a concorrência.

A chácara apresentava um aspecto deslumbrante com a sua caprichosa iluminação; repuxos, cascatas, alpendres, caramanchões artificiais, estátuas simbólicas, tudo estava cheio de luz ou coberto de flores.

O Melo Rosa não descansara um mês inteiro. Fora ele o encarregado de dirigir os preparativos do festejo. Durante esse tempo vivia preocupado exclusivamente com aquele trabalho. Controlava operários, copeiros, encomendava doces, tinha idéias, lembrava esquisitices de grande efeito, desenhava planos e sonhava maravilhas originais.

O Reguinho ajudava­o muito e era quem saía a fazer compras, a procurar cortinas, laçarias, estatuetas, cantoneiras e mais petrechos de ornamentação.

Foi um mês de pândega na chácara, enquanto a preparavam para o noivado. Melo Rosa conhecia vários boêmios, que entendiam de pintura e viviam por aí a trocar as pernas; carregou com eles para lá, deu­lhes de comer e beber, e os homens puxaram a valer pelas tintas e pelos pincéis.

O Melo estava no seu elemento; passava o dia a distribuir ordens e a tomar grogs, sem largar o charuto da boca.

O comendador, de vez em quando, aparecia por lá, para dar um vista d’olhos ou um sorriso de aprovação.

— Os rapazes são o diabo! dizia ele depois em casa à mulher. Olhe que revolucionaram a chácara: bandeiras, figuras, estrelas, o diabo! E o fato é que está bonito! Logo na entrada puseram um caboclo abraçando a figura de Portugal; dá na vista! Foi uma idéia feliz! Não! tanto um como o outro têm bastante mérito.

— Como não?! disse Genoveva com um ar sério e estúpido, persuadida que o marido, naquela última frase, se referia a Portugal e ao Brasil.

Quando só faltava uma semana para o grande dia, a mulher do comendador, e o seu futuro genro, mudaram­se para a chácara com o fim de aprontarem as mesas e os aposentos dos noivos. Ficariam estes em um pavilhão cor­de­rosa, que estava uma tetéia.

Foi justamente no pavilhão, que aqueles dois rapazes mais capricharam: havia cupidos por toda a parte, pombinhos, grinaldas, fitas e borboletas. Era um bouoir de mágica, um ninho casquilho e arrebicado.

Mudaram­se também para a chácara, com pretexto de ajudarem, Ursulina e suas duas filhas: Eugênia e Miló.

(continua...)

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