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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

O major sentia-se abalado até o intimo d'alma; as palavras do carmelita tinhão operado nelle profunda e salutar revolução. As rijas fibras d'aquelle coração endurecido pelos preconceitos da educação e da ignorancia, agora amolgadas pelos gelos da edade e pelas severas lições de amarga experiencia vibrárão pela primeira vez a um impulso nobre c generoso, e tornárão-se sensiveis á voz da razão e da natureza. Duas grossas lagrimas lhe escorrogárão pelas faces rugosas e macilentas; erão talvez as primeiras que lhe corrião das palpebras, desde que se conhecera homem; mas por isso mesmo quanta dôr, quanta amargura, quanto arrependimento devião encerrar ! . . . Levantou-se, e avançando de braços abertos para sua filha a cingia contra o coração.

Não, minha filha, não és tu que deves pedir perdão a mim, nem a ninguem, — disse com accellto da mais intima e sincera compuncçao. — É teu velho pae que o vem pedir-te agora. Perdão, minha filha !

E o velho apertava a filha entre os braços, e ambos derramavão lagrimas no seio um do outro.

— Perdoar-lhe eu meu pae, porque ? — dizia a filha entre soluços.

— Agora vejo que te fiz muito, muito mal. Eu sou a principal causa de tudo isto ; fui eu o autor de tua deshonra... fui eu, quem escravisou minha neta l . . . Perdão, Adelaide !... Perdão Conrado!...

— Não meu amigo, — atalhou Frei João, o perdão generoso que acaba de dar á sua filha, o absolve de qualquer falta, e o torna digno do respeito de todos nós.

— É verdade o que diz o meu amigo, senhor major, — disse Conrado. — Eu tambem de hoje em diante, banindo inteiramente da lembranca nossa antiga desavença, beijo a mão do pae generoso e bom, que sabe perdoar.

E dizendo isto beijava com respeitosa effusão a rugosa mão de seu antigo patrão.

— Mas, — continuou elle, a minha

culpa é talvez a maior e a mais grave de todas ; e eu tambem preciso do seu perdão.

— Si não tosse a minha, senhor Conrado, — replicou o major, — a sua culpa não existiria, nem a de Adelaide. Nada tenho que perdoar-lhe; mas si assim o quer, em minha consciencia e em meu coração está perdoado.

— Fico-lhe agradecido do fundo d'alma, Agora só me resta fazer ainda um pedido. O segredo, que aqui entre nós já não existe, deve ainda desgraçadamente ser conservado até entre irmãos. Rozaura ainda não sabe quem é seu pae ; mas hoje mesmo o saberá ; e si e senhor Moraes consentir, hoje mesmo saberá quem é sua mãe. Rozaura já tem quatorze annos, e parece-me que será capaz de guardar o segredo até para com seus proprios irmãos.

— Não posso me oppÔr, — respondeo Moraes com ar triste e abatido, — a que Rozaura fique sabendo quem é sua mãe; o que desejo é que meus filhos ignorem sempre a falta de Adelaide.

— Tem toda a razão, — confirmou o carmelita; — seus filhos são ainda mui creanças, e a indiscreção propria da edade os levaria naturalmente a divulgar um segredo que deve ficar para sempre occulto aos olhos do mundo.

Más eu tambem não sahirei daqui com a consciencia tranquilla, si não fizer ainda um pedido por minha parte e por parte do amigo que aqui me trouxe. Este pedido, que não importa sacrificio algum para a familia, tem por si a justica, a humanidade, mesmo a gratidão. É innegavel que quem mais contribuio para que se reconhecesse o verdadeiro nascimento e a liberdade de Rozaura, foi a escrava Lucinda. Sem ella a pobre menina ficaria talvez para sempre condemnada á condição de escrava em casa de sua propria mãe, quando muito á de liberta, sem que jamais se pudesse saber a sua verdadeira origem, e si tivesse de ter filhos toda a sua descendencia ficaria com essa nodoa original. De certo nem o senhor major, nem o senhor Moraes sabem ainda por que meios mysteriosos a divina Providencia se servio dessa boa rapariga como de um instrumento para seus altos e misericordiosos designios; mas cm breve serão informados dc tudo isso, e se convencerão de que digo a verdade. Lucinda é a verdadeira libertadora da menina Rozaura. Ora% não é justo que aquella que dá libcrdadc aos outros, que acaba de desatar os nós que amarravão ao posto do captiveiro a filha de seus senhores, continue a ser captiva. É emfim a liberdade de Lucinda que lhes pedimos. O meu amigo dará por ella qualquer somma que exigirem.

— Não acceito somma alguma, nem grande, nem pequena; não quero nem mesmo agradecimentos, — disse o major, — porque é esse o meu dever. Lucinda desde este momento é livre.

— Deus lhe levará em conta a sancta e generosa acção que acaba de praticar. Agora pódem mandar abrir essas portas ; nosso principal empenho era reconhecer Rozaura como livre de nascimento ; isto felizmente está conseguido ; é quanto basta e quanto se deve saber fóra daqui. Peço a Deus, senhor major, que a paz e felicidade, que tem reinado até aqui em sua casa, não se perturbe com este incidente, e se conserve sempre inalteravel.

Conrado. e Frei João se retirárão commovi dos e pensativos, mas satisfeitos com o resultado da espinhosa missão que tinhão desempenhado.

CAPITULO x VIII

A mãe e a filha.

(continua...)

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