Por Bernardo Guimarães (1875)
— Que me dizes?... a tal ponto chegará a tua excentricidade?!..
— Que queres? a natureza assim me fez. Nos primeiros momentos a vergonha e mesmo uma espécie de raiva me cegaram; vi quase com prazer o transe cruel por que ela passou. Que triste e pungente decepção!
—Vi em um momento desmoronar-se e desfazer-se em lama o brilhante castelo que minha imaginação com tanto amor tinha erigido!... uma escrava iludir-me por tanto tempo, e por fim ludibriar-me, expondo-me em face da sociedade à mais humilhante irrisão! faze idéia de quanto eu ficaria confuso e corrido diante daquelas ilustres damas, com as quais tinha feito ombrear uma escrava em pleno baile, perante a mais distinta e brilhante sociedade!...
— E o que mais é, — acrescentou Geraldo, — uma escrava que as ofuscava a todas por sua rara formosura e brilhantes talentos. Nem de propósito poderias preparar-lhes mais tremenda humilhação, um crime, que nunca te perdoarão, posto que saibam que também andavas iludido.
— Pois bem, Geraldo; eu, que naquela ocasião, desairado e confuso, não sabia onde esconder a cara, hoje rio e me aplaudo por Ter dado ocasião a semelhante aventura. Parece que Deus de propósito tinha preparado aquela interessante cena, para mostrar de um modo palpitante quanto é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza, e para humilhar até o pó da terra o orgulho e fatuidade dos grandes, e exaltar e enobrecer os humildes de nascimento, mostrando que uma escrava pode valer mais que uma duquesa.
Pouco durou aquela primeira e desagradável impressão. Bem depressa a compaixão, a curiosidade, o interesse, que inspira o infortúnio em uma pessoa daquela ordem, e talvez também o amor, que nem com aquele estrondoso escândalo pudera extinguir-se em meu coração, fizeram-me esquecer tudo, e resolvi-me a proteger francamente e a todo o transe a formosa cativa. Apenas consegui que Isaura recobrasse os sentidos, e a vi fora de perigo, corri à casa do chefe de polícia, e expondo-lhe o caso, graças às relações de amizade, que com ele tenho, obtive permissão para que Isaura e seu pai, — fica sabendo que é realmente seu pai, — pudessem recolher-se livremente à sua casa, ficando eu por garantia de que não desapareceriam; e assim se efetuou, a despeito dos bramidos do Martinho, que teimava em não querer largar a presa. Todavia, no dia seguinte pela manhã, o mesmo chefe, pesando a gravidade e importância do negócio, quis que ela fosse conduzida à sua presença para interrogá-la e verificar a identidade de pessoa.
Encarreguei-me de conduzi-la. Oh! se a visses então!... Através das lágrimas, que lhe arrancava sua cruel situação, transparecia, em todo o seu brilho, a dignidade humana. Nada havia nela que denunciasse a abjeção do escravo, ou que não revelasse a candura e nobreza de sua alma. Era o anjo da dor exilado do céu e arrastado perante os tribunais humanos.
Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de polícia, possuído de respeito e admiração diante de tão gentil e nobre figura, tratou-a com toda a amabilidade, e interrogou-a com brandura e polidez. Coberta de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma alma pura. Fugira em companhia de seu pai, para escapar ao amor de um senhor devasso, libidinoso e cruel, que a poder de violências e tormentos tentava forçá-la a satisfazer seus brutais desejos. Mas Isaura, a quem uma natureza privilegiada secundada pela mais fina e esmerada educação, inspirara desde a infância o sentimento da dignidade e do pudor, repeliu com energia heróica todas as seduções e ameaças de seu indigno senhor. Enfim, ameaçada dos mais aviltantes e bárbaros tratamentos, que já começavam a traduzirse em vias de fato, tomou o partido extremo de fugir, o único que lhe restava.
— O motivo da fuga, Álvaro, a ser verdadeiro, é o mais honroso possível para ela, e a toma uma heroína; mas... enfim de contas ela não deixa de ser uma escrava fugida.
— E por isso mesmo mais digna de interesse e compaixão. Isaura tem-me contado toda a sua vida, e segundo creio, pode alegar, e talvez provar direito à liberdade. Sua senhora velha, mãe do atual senhor, a qual criou-a com todo o mimo, e a quem ela deve a excelente educação que tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por sua morte a deixaria livre; a morte súbita e inesperada desta senhora, que faleceu sem testamento, é a causa de Isaura achar-se ainda entre as garras do mais devasso e infame dos senhores.
— E agora, o que pretendes fazer?...
— Pretendo requerer que Isaura seja mantida em liberdade, e que lhe seja nomeado um curador a fim de tratar do seu direito.
— E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as alegações que fazes?
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.