Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Os três últimos vice-reis do Brasil tinham conseguido vingar a lua nova e a lua minguante do desamor e do aborrecimento com que o povo as ultrajava. Seus nomes devem ser, portanto, lembrados com justa gratidão, no mundo da lua.
Entretanto, os anos foram correndo, e o Passeio Público não se regenerava.
O reinado do primeiro imperador não foi de sensível proveito para esse estabelecimento de recreio público.
A menoridade do Sr. D. Pedro II ainda menos. Creio que a única obra que então se fez no Passeio foi a substituição do gradil de taquaras que cercava os maciços por grades de ferro mandadas colocar pelo ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, se não me engana a memória. Se outras obras se executaram, foram tais que não valem a pena lembrar-se.
Ah! Não. Ainda há uma grande obra e um grande anúncio oficial que não devem ficar esquecidos.
A obra consistiu em mandarem-se arrancar as armas de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, que no Passeio Público recordavam e perpetuavam a lembrança do seu fundador.
Que idéia sublime! Mas, para tornar esquecido esse relevante serviço prestado por aquele vice-rei, era melhor mandar destruir o Passeio todo. E nem assim! Porque a história da pátria subsistirá, e não há poder humano que a destrua.
O anúncio oficial foi talvez ainda mais curioso.
Tinha soado a hora fatal para o menino útil inda brincando.
Um dia deu-se por falta do menino, e debalde o procuraram.
O pequeno não se escondera para fazer travessura à vontade, como criança que era: não batera as asas nem fugira, apesar de o ter feito alado Mestre Valentim.
Nada disso: o pobre menino, com o seu cágado e a sua faixa, tinha sido vítima de um roubo.
E que fez em tal caso o governo? Anunciou que “quem quisesse fazer outro igual e mais barato se apresentasse na administração das obras públicas”.
O anúncio era inspirado pelo mais santo amor da economia. Mas, nem o próprio governo sabia o preço por que pagara Luís de Vasconcelos aquele menino que acabavam de roubar. Entretanto, a questão era da maior transcendência financeira, e cumpre que aquele anúncio fique registrado nos anais da história.
E lá se foi o pobre menino!
Além do ladrão, ainda alguém mais ganhou com esse fato escandaloso: foi Andrew Grant, que, na sua História do Brasil, confundiu com um passarinho o cágado que o menino segurava. Depois do roubo de que falo, podia muito bem Andrew Grant sustentar que o cágado, que vira e estudara, tinha asas como um pato e voava como uma andorinha.
A declaração da maioridade do Sr. D. Pedro II veio abrir uma época nova para o Brasil. Então o Passeio Público mereceu durante algum tempo mais desvelada atenção.
Em 1841, o Coronel Antônio João Rangel de Vasconcelos, sendo inspetor das obras públicas do município da corte, não pode tolerar com a paciência, de que outros deram exemplo, o quadro lastimável do Passeio Público, e determinou melhorá-lo.
Faltavam os recursos para grandes trabalhos. Mas Rangel de Vasconcelos tinha um coração patriota e o patriotismo tem o dom de vencer todos os embaraços, quando se trata de servir ao país.
Entendendo-se com o ministro do Império, o dedicado inspetor das obras públicas empreendeu obras na verdade dispendiosas, e com sobras de outras verbas do serviço público, pôde realizar notáveis melhoramentos.
O terraço foi convenientemente melhorado e mostrou-se guarnecido por uma bela cortina entremeada de assentos paramentados de mármore e azulejos, e interrompida simetricamente por excelentes grades de ferro. Diversos ornatos aumentaram-lhe ainda a elegância.
Os antigos pavilhões quadrangulares, já destruídos em 1817, foram substituídos por dois torreões octogonais. Mas, neste ponto, foi enorme a diferença que se notou entre a obra do século passado e a que se efetuou em 1841. Em seu interior, os torreões são pintados a óleo, fingindo mármore, e nos tetos de ambos aparecem as armas nacionais, e... eis tudo.
Ah! Mestre Valentim! Ah! Xavier das Conchas!
Rangel de Vasconcelos, tendo de renovar a varanda do Passeio Público, quis render uma simples homenagem aos antigos pavilhões, levantando os dois torreões, porque lhe faltaram os meios pecuniários para dar aos pavilhões do Xavier das Conchas sucessores dignos deles.
Creio que, se nisto andou errado o patriotismo, ainda pior
se houve no governo em 1817, e que melhor fora que este tivesse conservado
intactas, e ainda mesmo com todas as suas rugas de velhice, aquelas obras do
Xavier das Conchas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.