Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Mas folgamos bastante por saber que é seu afilhado, accrescentou Carlota, a mãi de Christina.
— E além de afilhado, parente, disse Geraldo.
— Parente chegado?... perguntou com interesse a boa mãi da menina.
— Não ; tenho outros mais próximos, respondeu Geraldo, desatando a rir.
Bem depressa a conversação tornou-se geral, sendo Innocencio objecto de extraordinarios elogios da parte de Fagundes e de Carlota.
Quem menos fallava era Christina.
O rosto desta moça era regular e bonito; attrahia porém a attenção ainda mais por uma certa expressão de suave melancolia do que pela suabelleza; seus olhos principalmente, seus olhos negros ehumidos, erão cheios de um languor que captivava ; sua voz parecia um canto harmonioso, cada um de seus sorrisos um triumpho de amor : a graça morava nos labios de Christina.
Innocencio devorava cora olhos ardentes a sua encantadora amada.
Fagundes e Carlota conversavão cora Geraldo de modo a deixar ao mancebo tempo e occasião de sobra para fallar era liberdade a Christina.
Mas os dous namorados entendião-se ainda mais com os olhos e cora os suspiros do que com a palavra.
— Canta alguma cousa, disse emfim Carlota a Christina.
A moça fez-se rogar um pouco, e acabou por levantar-se, sendo acompanhada por Innocencio ao piano.
— Permitte que eu tenha a honra de acompanhar o seu canto?... perguntou o mancebo.
— Com muito prazer, disse corando e tremendo a moça.
Escolhião a musica... folheavão-se os livros... os dedos côr de rosa de Christina encontravão-se com os de Innocencio, e ao doce contacto ambos sorrirão.
Emfim Christina preferio entre outras a aria de Eleonorado Torquato Tasso, e cantou-a com sentimento e paixão.
Acabado o canto, os dous namorados ficarão conversando junto do piano.
— Gosta muito d’aquella musica, minha senhora ?..-
— O mais que é possivel.
__ Tem razão; a musica do Torquato é um verdadeiro triumpho da arte.
__ Talvez que a arte seja o que menos influe na minha predilecção por esta ária.
— Então...
— Arrebata-me o pensamento que alli domina, arrebata-me aquelle amor que faz esquecer a distancia que separa o poeta da princeza: o sentimento transborda alli com a mais sublime pureza. É um amor que não parece da terra, e que é no emtanto o único que eu posso reputar verdadeiro e santo.
Innocencio teve desejos de ajoelhar-se aos pés de Christina e adoral-a como um anjo.
— Oh ! tem havido tantos sacrilegos, ousando emprestar o nome sagrado de amor a sentimentos ás vezes tão baixos !... o interesse tem tantas vezes manchado esse nome bello e puro, envolvendo-se com eíle, que...
— Acabe...
— Senhor.... estou dizendo loucuras...
— Oh! não.... está fazendo ouvir a lição da virtude, da generosidade, do amor do céo !
— Pois bem : tantas vezes tem-se observado aquelle sacrilégio abominável, que pela minha parte eu preferira ser victima delle a parecer suspeita de haver pensado em commettel-o! Oh! eu desejara que o homem a quem eu amasse.... e que tivesse de ser meu esposo, fosse tão pobre, tão completemente pobre que somente me pudesse dar o thesouro do seu coração. Então eu ostentaria o meu amor profundo, desinteressado, virgem, divino pela sua essência, divino ainda pela sua duração sem termo... porque o meu amor, eu o sinto, não poderá acabar nunca!
Com uma commoção violenta, Innocencio agitado, nervoso, tremulo e receioso de atraiçoar-se, correndo com os dedos pelo teclado de piano, executou alguns compassos de uma musica estridente, ao mesmo tempo que Christina, commovida também, mas observandoo cuidadosa e disfarçadamente, vio cahirem-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.
— Incommodei-o ? chora?... perguntou ella.
— Não ! não! estas lagrimas que cahírão de meus olhos, são mais doces do que todos os risos da felicidade, Christina.... Christina... o seu amor é como o amor que eu sinto, e o seu... eu o quero para mim... é meu... pertence-me... Ah! diga-me ainda uma vez que me ama...
A moça deixou cahir sua mão esquerda sobre as mãos de Innocencio, e apertando com a outra o coração, murmurou docemente :
— Amo-o !
O chá começou a servir-se naquelle momento.
Às dez horas da noite Geraldo e Innocencio despedirão-se e retirárão-se.
— Então ! aproveitaste bem o teu tempo, não é assim ?... perguntou Geraldo.
— Meu padrinho, respondeu Innocencio, Christinaé um anjo!
— Mas repara que não me asseguras que não seja algum daquelles anjos decahidos que se revoltarão contra Deos e cahírão do céo no inferno.
— Não zombe ; é um anjo de virtude e de amor!
— Qual! é uma moça bonitinha, que tem mais defeitos do que pensas.
— Meu padrinho, peço-lhe que respeite aqúella que deve ser
minha esposa.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.