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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Perto da moça vinha Ricardo em “Edgard”, conversando com D. Clarinha. Aos lados, Guimarães e o Bastos disputavam a direita ou a esquerda da moça, conforme as sinuosidades do caminho e evoluções da cavalgada. No segundo plano notava-se D. Guilhermina a par com Fábio, que se desempenava em um soberbo cavalo campista, cujo defeito único era ser um tanto pesado. Seguiam-se outras moças e cavaleiros, sem contar a bagagem pesada, que fechava agora o bando. 

Eram sete horas da manhã, e pouco havia que o rancho alegre partira. 

Conforme o ajuste do domingo precedente, Ricardo às seis horas se dirigira à casa do Soares. Não lhe causava o mínimo alvoroto esse passeio; dispunha-se a ele, como ao cumprimento de um dever de cortesia. 

Guida o convidara para obsequiá-lo; e ele, que reconhecia-se injusto nas prevenções que nutrira contra o banqueiro e sua família, considerava-se obrigado em consciência a aceitar de rosto alegre o agasalho que lhe faziam nessa casa. 

Era o único meio que tinha de agradecer a fineza. 

Todavia, não foi esse o principal motivo. Da conversa de Fábio, percebeu ele que o amigo ardia em desejos de tomar parte no passeio, e não faltaria por certo, se o “Galgo” pudesse dividir-se em dois ou estivesse em moda a garupa. Desde então Ricardo, que tinha suas razões, não hesitou mais; e decidiu-se a ir ao passeio, para evitar que Fábio o substituísse. 

Muito cedo, pois, chegou à casa do Soares. Grande porém foi a sua surpresa, e não menor a contrariedade, avistando no pátio, entre o grupo de senhoras e cavaleiros, que se preparavam para montar, a Fábio ocupado em apertar a cilha do cavalo de D. Guilhermina. 

Madrugando nesse dia, contra o costume, o sobrinho de D. Joaquina se aprontara e saíra a passeio para o lado da Boa Vista. Afagava-o uma esperança. 

Em caminho encontrou D. Guilhermina que voltava do banho com outras: 

- Então não vai à “Vista dos Chins?” perguntou ela. 

- Não arranjei animal! respondeu Fábio. 

- Que desculpa! Eu lhe empresto um. Venha! 

Fábio acompanhou as senhoras à casa do Soares. No pátio já estavam arreando os animais. D. Guilhermina chamou um escravo: 

- O cavalo do Sr. Lima aqui para o Sr. Dr. Fábio.

- Sim, senhora. 

- Este castanho é o seu? perguntou Fábio. 

- Acha bonito? 

- Soberbo! 

Guida, que descia os degraus da escada, viu Ricardo apear-se, e foi-lhe ao encontro:

- Como passou? 

Saudara ao moço com estas palavras e um aperto de mão; mas o olhar cheio de afagos foi para o “Galgo”. Havia nesse olhar a angélica voluptuosidade com que a moça cobiça um capricho, e a menina uma boneca. 

“Edgarg” estava pronto e esperava pela senhora. O estribo de Guida era feito de modo que lhe permitia montar sem auxílio de banco, apesar da altura do cavalo. Era um simples invenção de seu gênio travesso, a qual o melhor corrieiro da corte, o Lambet, se incumbira de pôr em prática. A volta do loro passando na mola atravessava o suadouro e prendia-se no outro lado a um pequeno gancho pregado na armação do selim e elegantemente disfarçado por uma aba de couro. 

Antes de montar o loro frouxo descia o estribo até o ponto de não constranger; elevando-se rapidamente sobre esse apoio, de um salto a moça galgava o selim; e recolhendo o loro, prendia-o mais curto, encaixando o ilhó no gancho. 

Assim tinha ela a liberdade de apear-se quando queria, durante o passeio, e montar sem auxílio estranho. 

Já estava com o pé no estribo, e a ampla saia do roupão mostrava a ponta da bota castanha a brincar sobre o disco de aço quando, tomada de súbito a desgosto, afastou-se de “Edgard”: 

- Aborrece-me este cavalo!... disse ela com enfado. Pedro!... 

O preto acudiu. 

- Não há outro animal para mim? 

- E o alazão? perguntou o preto embasbacado e apontando para o “isabel”.

- Não quero este!... É muito feio. 

- Oh! que injustiça! disse Ricardo sorrindo. 

- O senhor acha bonito? 

- É um soberbo animal. 

- Pois vá nele. 

- E a senhora? 

- Eu irei em qualquer. 

- De modo algum. Se o “Galgo” não fosse tão esperto! 

- Por isso não! Mas o senhor não se há de privar por minha causa. Não; eu fico, vou passear a pé. 

(continua...)

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