Por José de Alencar (1875)
— Mas, filho, o sr. capitão-mór não é o dono da Oiticica? Não é êle quem manda em todo êste sertão? Abaixo de El-rei que está lá na sua côrte, todos devemos serví-lo e obedecer-lhe.
— Pergunte aos pássaros que andam nos ares, e às feras que vivem nas matas, se conhecem algum senhor além de Deus? Eu sou como êles, mãe.
— Tu és meu filho, Arnaldo. Lembra-te do que foi para teu pai esta casa onde nasceste, e do que ainda é hoje para tua mãe.
— Os benefícios, eu os pagarei sendo preciso com a minha vida; mas essa cida que me deu, mãe, se eu a vivesse sem honra, meu pai lá do céu me retiraria sua bênção.
— Que vai ser de mim, Senhor Deus? exclamou a sertaneja na maior aflição.
— Sossegue, que nada há de acontecer. Tenho o meu bentinho, continuou Arnaldo a sorrir e tocando no seu relicário: não há mal que me entre, nem feitiço que me enguice. Adeus! De longe mesmo guardarei àqueles a quem eu quero bem, ainda que êles me queiram mal.
— Ouve, Arnaldo! disse a mãe buscando reter o filho. Eu te peço!
— Quando precisar de mim, mande sua comadre chamar-me.
— Não te vás, filho, que te perdes!
Justa enlaçou o colo do filho com os braços e exclamou voltando-se para o mato.
— Flor, êle não me quer ouvir!
As fôlhas agitaram-se, e instantes depois surgiu da verde espessura, como das cortinas de um dossel, o vulvo gracioso de D. Flor, com as faces tocadas de leves rubores.
— Êle não quer ir, minha filha. Nem ao menos consente que eu, sua mãe, lhe peça e rogue. Fecha-me a bôca, e logo com o nome do pai. Fale-lhe, Flor! Talvez a você, que sabe dizer as coisas, êle ouça! Eu sou uma pobre sertaneja e não sei senão querer bem a você e a êste filho de minha alma.
A donzela aproximou-se do colaço, que a esperava atônito e pálido. Pousando-lhe a mão mimosa no ombro disse, voltando-se para a Justa e dirigindo sua resposta a ambos, mãe e filho.
— Êle vai!
O suave contacto dêsses dedos melindrosos bastou para abater a energia do ousado sertanejo. Alí estava êle agora tímido e submisso, não se atrevendo a balbuciar uma palavra, nem sequer a erguer a vista ao encontro dos olhos altivos que o dominavam.
D. Flor sorriu-se no meigo desvanecimento do poder que ela, frágil menina, exercia sôbre essa natureza pujante; mas o assomo de faceirice passou rápido e não perturbou o nobre impulso de seu coração.
— Vim buscá-lo, Arnaldo, para levá-lo à casa, disse ela repassando a voz maviosa de um mago encanto. Não me acompanha? Ainda não lhe dei a lembrança que trouxe do Recife.
Arnaldo arrancou-se com esfôrço ao lugar onde estava, e murmurou promovendo o passo:
— Vamos!
Justa bateu palmas de contente.
— Eu logo vi que só você, Flor, era capaz de fazer o milagre!
— Pois eu sou a fada encantada! disse a moça, fazendo com êste gracejo uma alusão aos brincos da infância.
Flor dirigiu-se à casa acompanhada pelos dois. Pouco adiante encontrou Alina com as escravas, que a ficaram esperando, enquanto ela acudia ao chamado da ama.
O olhar doce e melancólico de Alina fitou-se no semblante de Arnaldo, que nem pareceu dar por sua presença. O sertanejo ia completamente alheio de si e preso do condão que o arrastava mau grado seu. Não tinha conciência do que fazia, nem já se lembrava do sacrifício que exigiam de seus brios.
Irresistível devia ser a paixão que submetia assim um caráter indomável e altivo ao ponto de rojá-lo na humilhação, ao simples aceno de uma mulher!
Ao sair da mata, Flor avistou ao longe, no terreiro, o capitão-mór, sentado à sombra da oiticica, ao lado de D. Genoveva. Voltando-se para Arnaldo, que a seguia maquinalmente, mostroulhe o vulto do fazendeiro.
— Lá está meu pai, que nos espera.
— Chegando diante dele, filho, ajoelha e pede perdão.
— De joelhos?… exclamou com voz surda e profunda o sertanejo, cuja alma entorpecia afinal sublevava-se.
Flor compreendeu a emoção de Arnaldo e quis aplacar-lhe a revolta dos brios.
— Eu ajoelharei também, disse ela com adorável meiguice.
Estas palavras, porém, bem longe de serenarem o ânimo do mancebo, ainda mais o alvoroçaram, confirmando a suspeita de que só com êste ato de humildade obteria entrar de novo nas boas graças do capitão-mór.
— Nunca! bradou êle, retrocedendo.
— Arnaldo! disse D. Flor.
— Eu lhe peço, Flor, não exija de mim semelhante vergonha. Não posso, é mais forte do que a minha vontade. Se é preciso que eu ajoelhe, aquí estou a seus pés, mas aos pés de um homem, não. Morto que eu estivesse, as minhas curvas não se dobrariam.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.