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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Mas quase ao tocar a extremidade esquerda do terraço, quando o par incompreensível tinha atravessado todo aquele extenso quadro sem dar fé das belas jovens, e elegantes mancebos que por ali vagavam, Celina, no momento em que se voltava para repetir o mesmo passeio, viu em um volver de olhos os mesmos dois mancebos, que já uma vez tinha encontrado, e a haviam feito corar, e que ora a observavam de uma das janelas do torreão esquerdo.

Um dos observadores tinha o braço levantado, e mostrava-a com o dedo. Ambos se estavam rindo como de inteligência.

A brisa da tarde trouxe aos ouvidos de Celina as mesmas palavras da outra vez:

– São namorados.

A perturbação da moça redobrou; ela compreendeu que havia alguma coisa de singular neles dois. Lembrou-se desse silêncio obstinado que ambos guardavam, dessa melancolia que os fazia notáveis, e temendo já a multidão, ao chegar à primeira escada do centro que desce ao lado da cascata, ela deixou o braço de Cândido e disse:

– Desçamos, senhor... vamos passear... conversemos... por quem é... conversemos.

Cândido levantou os olhos e viu o rosto de Celina ainda mais embelecido pelo rubor do pejo... uma leve excitação nervosa lhe fazia palpitar com força o coração, e lhe inundava o seio de voluptuosidade. Cândido respondeu tremendo:

– Conversemos; e ficou ainda calado.

– Oh! vamos passear pelas alamedas... leve-me para as menos freqüentadas...

eu aborreço a multidão... mas conversemos!

– Vamos para as alamedas... murmurou Cândido.

Os dois mancebos que observavam desde o princípio Cândido e Celina, perderam-nos de vista ao voltar de uma alameda.

Cândido e Celina passeavam a sós.

Temendo a multidão como a um inimigo, procuravam as ruas solitárias; aí reinava o silêncio; as árvores cruzando seus ramos deixavam apenas passar raios de uma luz duvidosa... sopravam brandos favônios, que vinham travessos entender com as folhas, beijar as flores, e espalhar os perfumes, que das últimas roubavam...

Celina já se havia esquecido dos dois mancebos... e pensava sobre o romance que nessa tarde lhe havia cantado o velho Rodrigues...

Cândido lembrava-se do que ainda há pouco tinha ouvido da velha Irias.

Não conversavam... não se diziam palavra... fechava a boca de ambos esse pudor angélico do primeiro amor; mas o primeiro amor diz tudo no seu eloqüente silêncio, diz mil vezes mais do que em seus longos discursos dizem esses amores velhos, gastos, que já não têm originalidade nem pureza, e que falam muito porque sentem pouco.

O primeiro amor respira virtude e castidade: é a exalação do sentimento puro e santo que Deus soprou em nossa alma... exalado esse, os outros são feios arremedos, que nunca se podem parecer com ele.

O primeiro amor não fala... quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito... diz tudo.

Cândido e Celina não falaram, mal se olharam; suspiraram porém, tremeram.

Ao crepúsculo recolheram-se ambos ao caramanchel, onde Anacleto e Irias conversavam ainda.

Em todo passeio Celina só observou um fenômeno: quando sua mão tocava menos de leve o braço de Cândido, o mancebo estremecia involuntariamente. Cândido pôde apenas notar, que se alguma vez seus olhos encontravam os de Celina, a moça corava muito, e mostrava-se enleada.

E no fundo do coração ambos se haviam perguntado, o mancebo, por que era que aquela moça corava?... a moça, por que era que aquele mancebo tremia?...

Eles se amavam.

As quatro personagens de que temos falado, deixaram enfim o Passeio Público.

Quando de volta se achavam exatamente defronte do “Purgatório-trigueiro”, um carro puxado por dois cavalos brancos se despedia do portão do “Céu cor-derosa”, e passou perto deles.

– O carro do sr. Salustiano, disse a velha Irias.

A noite escondeu um movimento de despeito, e um olhar de cólera que escaparam ao velho Anacleto.

Entraram todos quatro no “Céu cor-de-rosa”.

CAPÍTULO XV

O SENHOR E A ESCRAVA

MEIA HORA depois que Anacleto e Celina tinham saído para se dirigirem ao Passeio Público, um carro parou junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e Salustiano apeou-se dele.

Mariana, que o recebeu, estava só na sala.

Apresentou-se Salustiano com ar triunfante; a filha de Anacleto estava pelo contrário pálida, mas com semblante desdenhoso.

Sentaram-se ambos muito perto um do outro. Houve um curto silêncio, e Salustiano falou primeiro:

– Enfim, estamos um momento a sós, minha senhora!

– É verdade, respondeu com voz segura Mariana, eu preparei este momento.

– Como?...

A viúva levantou-se, foi fechar a porta da sala, e tomando de novo o seu lugar:

– O senhor mo havia exigido, disse; no serão de anteontem despediu-se de mim com estas palavras: “depois de amanhã, às cinco horas da tarde!” não foi assim...

– Ah! Sim... creio que sim, respondeu Salustiano, fingindo que se lembrava.

(continua...)

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