Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
A valsa é o delírio das moças; porque na valsa é que elas experimentam esses movimentos rápidos, acelerados, consecutivos, que tanto amam por sua organização, e que, marcados por uma música forte, alegre, impulsiva, produzem nelas choques nervosos e abaladores. É na valsa que seus olhos mais brilham, e que mais vivo fogo se acende em suas faces; é na valsa, enfim, que elas se assemelham com os anjos, voando pelos ares, e tendo só de humanos... o receio de uma queda.
E a valsa é o belo ideal dos mancebos; porque é nela que eles cingem a delicada cintura de uma moça! nas contradanças, o apaixonado prefere dançar defronte da sua bela; na valsa, pelo contrário, é com ela mesma que ele dança... com o rosto perto do dela... sentindo o fogo ardente de seus olhos fitos nele... sentindo o delicioso bafo que escapa suspiroso dos lábios dela para refletir nos seus; sentindo a palpitação de seu coração... o toque de sua mão... bebendo o sorriso de seus lábios, e amparando o doce peso de seu corpo, que desleixadamente se abandona nos braços que a cingem!...
A valsa acabou enfim. E passeava-se.
Quem poderá ouvir tudo quanto se diz em um passeio de sarau! seria sua relação um romance tão variado como completo... seria talvez mil romances; porém, desgraçadamente, o que aí se conversa de mais interessante é feito tão em segredo e por entre tantos sorrisos, que mal se pode entender. É melhor, pois, não dizer nada, para não cair no erro de dizer o que menos interessa.
Mas Lucrécia tinha sido convidada, para passear, por Otávio; era como uma satisfação que lhe dava o moço; ela aceitou-lhe o braço. Havia algum acanhamento entre ambos, por isso durante a primeira volta pela sala nenhum dos dois disse palavra; depois eles se dirigiram para o terraço; ao passar pela sala dos refrescos Otávio viu um amigo seu, que passeava só.
— Oh!... Leopoldo! tão solitário...
— Que queres? não encontrei senhora que quisesse aceitar a oferta do meu braço.
— Olha... dirige-te àquela... vai sem cavalheiro.
E Otávio mostra-lhe uma senhora, que deveria contar seus bons setenta janeiros.
— Misericórdia! exclamou Leopoldo; antes só, do que mal acompanhado.
— Mas, segundo o teu sistema, a melhor maneira de chegar até junto das moças é agradar às velhas.
— Sim, sim; porém, aquela é uma velha sem fiadores.
Neste momento Otávio e Lucrécia entravam no terrado.
— Que quer dizer uma velha sem fiadores?... perguntou Lucrécia.
— Quer dizer, respondeu Otávio, uma senhora adiantada em anos, que não tem filhas, nem sobrinhas, nem agregadas moças.
— E por conseqüência uma senhora, com quem os senhores julgam todos os momentos perdidos; Sr. Otávio, V. S.ª tem mãe?...
— Minha senhora, eu não penso como o meu amigo.
— Oh!... mas o que se pratica... o que tenho ouvido... o que acabei de ouvir, enfim me convence de que se eu nunca tiver filhas, não devo freqüentar sociedade alguma, logo que me sentir envelhecer.
— Mas, minha senhora, com o espírito de V. Ex.ª não é possível envelhecer...
— Obrigada... obrigada!... eu gosto muito de parecer espirituosa; mas V. S.ª o sabe, as senhoras gostam ainda mais de parecer outra coisa.
— Eu acreditei, respondeu Otávio, que devia mostrar-me simplesmente tocado do espírito de V. Ex.ª, pois que para o completo elogio de sua beleza é mais que suficiente um espelho.
— Acha-me, portanto, bonita?...
— Preciso repeti-lo ainda?...
— Agradável?...
— Muito.
— Espirituosa?
— O mais que é possível.
— Meu Deus!... isto é quase uma declaração.
— Que não seria mais do que a repetição do que já me tem ouvido.
— Estou a ponto de crer que me ama.
— Eu pensava que já não havia dúvida a esse respeito.
— E, no entanto, o senhor nem ao menos dançará comigo! — Minha senhora... eu cheguei tarde aos pés de V. Ex.ª — Nem uma quadrilha... nem uma valsa... nada!
— Eu estava dizendo que cheguei tarde aos pés...
— Oh! é porque talvez, quando quis chegar até a mim, alguma bela aparição o fez parar... sentir... e desejar...
— Minha senhora...
— Primeiro dirigiu-se a uma moça que se sentava ao meu lado; obteve, sem dúvida, o que queria; e depois, quando ouviu que eu acabava de conceder a um seu amigo a terceira quadrilha, V. S.ª chega-se então a mim; e o que me pede?... a terceira quadrilha... — Então V. Ex.ª chegou a persuadir-se...
— Tenho a certeza de que o Sr. Otávio não se lembrou de mim neste sarau. — É uma injustiça, minha senhora, que eu podia voltar também contra V. Ex.ª
— Como?...
— Dizendo outro tanto de V. Ex.ª — Por quê?...
— Porque sabendo que eu vinha a este sarau, porque vendo-me na sala, não me quis guardar uma quadrilha.
— Oh!... mas V. Ex.ª podia ter-me castigado com mais generosidade...
— Pois receba o castigo, senhor: eu guardei-lhe uma quadrilha.
— E qual?... e qual?... minha senhora!
— O senhor a deseja?
— Peço-a de joelhos!... diga-me o número!...
— A sexta...
— A sexta quadrilha...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.