Por Camilo Castelo Branco (1869)
O encontrá-la, portanto, em companhia de sua irmã causara aquele entorpecimento de espírito e palavra que parecia irmanar-se com a indiferença, e até com a surpresa desagradável. Depois, porém, que se afez ao ar da felicidade, e os seus olhos puderam suportar a luz inesperada, Francisco transfigurou-se, as lágrimas venceram a represa, os dezoito anos refloriram; e, de súbito, Ângela, que não entendia o frio silêncio dele, sentiu-se-lhe apertada nos braços, e beijada nas faces que ardiam dos beiços, das lágrimas e do pudor.
― Eu vinha procurar-te, Ângela! – balbuciou Francisco – mas Deus não quis que eu imaginasse a possibilidade de te encontrar ao lado da minha santa irmã. Eu tinha sofrido muito e a recompensa devia ser esta...
Ângela abaixou o rosto, e pensou confusamente na estranheza deste transe.
Costa, voltando em si, compenetrou-se do pejo de Ângela, e disse:
― Eu beijei a tua face, Ângela, porque não há consideração que te obrigue a corar. Teu marido morreu.
― Morreu?! – conclamaram as duas senhoras, e em ambas o ar da fisionomia não revelava sentimento que pedisse luto imediato. Os olhos de Ângela não tinham sombras de funéreos; o sorriso de Joana iriava as cores azuis e escarlates dum vestido de gala. E, se neste conflito pairasse idéia triste, bastaria um destempero de Vitorina para destruir o efeito lúgubre da notícia. Quando Francisco proferiu teu marido morreu, a criada, que estava na cozinha, correu à saleta, exclamando:
― Ainda bem! Ainda bem!
E chorava de alegria, como nunca ninguém chorou por um defunto, exceto os herdeiros, parentes em quarto grau.
Cumpria relatar o caso infando. Costa, omitindo os fatos essenciais, contou que conversara com Hermenegildo nos primeiros dias da doença, sobre coisas particulares da sua vida; mas, como outros doentes fora do Rio o desviassem do enfermo, não sabia dizer da morte senão o principal: isto é, que morrera.
Instado a referir o diálogo que tivera, contou que o brasileiro apenas se queixava e dava como prova da deslealdade de Ângela a venda duns brilhantes, e a pertinácia em não declarar o destino dado a 1.650$000 réis.
― Foi... – clamou Joana, e suspendeu-se, quando encontrou os olhos de Ângela, que pareciam recriminá-la com profundíssima dor.
― Foi... o quê? – perguntou Francisco José da Costa, fingindo-se embaraçado pelos olhares mútuos das duas, ― Nada... – dissimulou Joana. – Queria eu dizer que foi uma falsidade.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.