Por Machado de Assis (1872)
— Não é, interrompeu Félix com impetuosidade, não é a melhor porque ambos perderemos com ela, e nada nos impede a resolução contrária. Creio que não duvide de meu amor; mas digo-lhe que o não compreende, nem avalia. Eu não teria animo de lhe propor, nas circunstancias em que nos achamos, um rompimento que... O sorriso com que a moça o ouvia cortou-lhe a palavra neste ponto. Caiu em si, lembrou lhe, que ele facilmente esquecia tudo - lembrou-lhe que lhe não cabia falar de rompimento, e murmurou:
— Não tenho direito de falar assim, e vejo que mereço um castigo . . .
— Não é castigo, atalhou a viúva, é necessidade. Se alguma consolação pode levar desta última entrevista, leve a certeza de que o amo como dantes, e de que o meu padecimento será ainda maior do que o seu. O casamento é já agora impossível. Eu não sei o que motivou a sua carta, mas imagino que foi alguma dúvida nova a meu respeito. Se nos casássemos? cessariam elas?
— Sim! porque eu hoje creio e vejo o que padeceu por mim. Para duvidar do seu amor seria preciso que houvesse perdido a razão. Demais, continuou Félix enquanto Lívia abanava tristemente a cabeça, - viveremos só para nós, fecharemos a nossa casa aos olhos estranhos...
—Ainda assim o irá perseguir esse mau gênio, Félix; seu espírito engendrará nuvens para que o céu não seja limpo de todo. As dúvidas o acompanharão onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no seu coração. Acredite o que lhe digo; amemo-nos de longe; sejamos um para o outro como um traço luminoso do passado, que atravesse indelével o tempo, e nos doure e aqueça os nevoeiros da velhice.
Lívia proferiu estas últimas palavras com a voz tremula, e uma lágrima lho rolou pela face pálida.
— Por que nos separaremos agora que estamos à porta do céu? perguntou Félix. Não me cabe o direito de exigir uma felicidade que repeli tantas vezes; mas, se pudesse entrar na minha alma veria que os meus erros, por maiores que sejam, e são grandes, anima-os sempre um sentimento de amor, e que enfim eu cedo sempre ao grito de minha consciência. A mais bela ação seria perdoar-me esquecendo e o único modo de esquecer seria voltarmos ao tempo de nossas esperanças.
— Perdoei tudo, e tudo esqueci, apagou-se o passado e nenhum ressentimento me ficou. O que se não apaga é o futuro.
Félix torcia as mãos. Era patente o seu desespero. A viúva mal podia encará-lo. Seguiu se um longo silêncio, interrompido pela chegada de Luís. O menino pôs termo à entrevista. Félix olhou ainda algum tempo para a moça; mas leu-lhe n a fisionomia que a resolução era inabalável. Levantou-se para sair.
— Conservaremos a estima recíproca, disse Lívia estendendo-lhe a mão, e espero que me conserve também alguma cousa mais... como eu.
Eram as últimas palavras da moça, vieram entrecortadas de soluços. Félix quis pegar-lhe nas mãos e aproveitar esse passageiro desmaio para conseguir a retratação das palavras. Mas a moça abraçou-se ao filho em cujo seio escondeu o rosto.
— Não faça chorar mamãe, disse Luís enlaçando com os bracinhos o pescoço da viúva. Félix retirou-se lentamente, com os olhos anuviados,, turvo o espírito, o passo vacilante, e transpôs a custo a soleira daquela porta que se lhe ia fechar para sempre.
CAPÍTULO XXIV / HOJE
DEZ ANOS volveram sobre os acontecimentos deste livro, longos e enfastiados para uns, ligeiros e felizes para outros, que é a lei uniforme desta mofina sociedade humana.
Ligeiros e felizes foram eles para Raquel e Meneses, que eu tenho a honra de apresentar ao leitor, casados, e amantes ainda hoje. A piedade os uniu, a união os fez amados e venturosos.
A pouco e pouco, o primeiro amor de Raquel se foi apagando, e o coração da moça não achou melhor convalescença que desposar o enfermeiro. Se lho dissessem no tempo em que ela adoecera por amor do médico, levantaria desdenhosamente os ombros, e com razão. Donde se colhe quão acertado é aquele provérbio oriental que diz - que a noite vem pejada do dia seguinte. Qual fosse a aurora que a sua noite trazia no seio não o adivinhara Raquel, mas a sua atual opinião é que não a podia haver mais bela em toda a escala do tempo.
O coronel e D. Matilde, com poucos meses de intervalo, foram continuar na eternidade a doce união que os distinguira neste mundo.
Lívia entra serenamente pelo outono da vida. Não esqueceu até hoje o escolhido de seu coração, e à proporção que volvem os anos, espiritualiza e santifica a memória do passado. Os erros de Félix estão esquecidos; o traço luminoso, de que ela lhe falara na última entrevista, foi só o que lhe ficou.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.