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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Era só redigir cartas o que ele não sabia; mas, sendo elegante, bonitinho, bom dançador, tinha todas as boas qualidades para um aperfeiçoado amanuense do extraordinário Pancome.

Tendo em vista as necessidades da representação da Bruzundanga, o visconde nomeou-o logo, sem detença alguma. Foi uma acertada nomeação, e sábia, que veio provar o quanto são tolos os regulamentos e as leis que exigem dos amanuense a vetusta ciência de saber redigir cartas.

Se não fosse um herói, uma notabilidade universal o Ministro, talvez o galante Sune não tivesse sido aproveitado e os estrangeiros não teriam uma favorável idéia da boniteza dos homens da Bruzundanga; mas era, felizmente, e pôde, portanto, pôr de parte as tolas exigências legais, e o país, com tal aquisição para o seu funcionalismo, adiantou um século.

É verdade que o Marechal Soult, duque da Dalmácia, e Guizot que em celebridade e notoriedade universal talvez não invejassem as de Pancome, foram ministros de França, e, ao que consta, nunca desrespeitaram ostensivamente as leis do seu tempo. Isto aconteceu em França; mas na Bruzundanga as cousas se passam de outro modo e aquele país só tem ganho com tal proceder, como acabamos de ver.

Feito amanuense, aprendeu logo a copiar minutas e, em menos de seis anos, Sune, o tal da carta, acabou eleito, por unanimidade, membro da Academia de Letras da Bruzundanga.

Ficou sendo o que aqui se chama — um "expoente".

CAPÍTULO XXII

NOTAS SOLTAS

Um anúncio de livraria, na Bruzundanga:

"Acaba de aparecer o extraordinário romance — Meu caro senhor..., de Dona Adhel Karatá (pseudônimo de Hiralhema Sokothara Lomes, filha do grande poeta e escritor Sokothara Lomes, cujas assombrosas glórias literárias ela continua com muito brilho, e irmã do fino estilista e elegante parlamentar Carol Sokothara Lomes). À venda, etc., etc."

Lá, na Bruzundanga, os Mandachuvas, quando são eleitos, e empossados, tratam logo de colocar em bons lugares os da sua clientela. Fazem reformas, inventam repartições, para executarem esse seu alto fim político.

Há, porém, dous cargos estrictamente municipais e atinentes à administração local da capital da Bruzundanga, que todos os matutos amigos dos Mandachuvas disputam. Os Mandachuvas, em geral, são do interior do país. Estes cargos são: o de Prefeito de polícia e o de Almotacé-mor da cidade. Não só eles são rendosos, pelos vencimentos marcados em lei, como dão direito a propinas e outros achegos.

O de chefe de polícia rende, na nossa moeda, cerca de vinte contos por ano, só nas taxas cobradas às mulheres públicas; o de Almotacé-mor da cidade, esse então não se fala...

Sendo, assim, lugares em que se pode enriquecer, não faltam doutores da roça que os queiram e empreguem todas as armas para obtê-los.

Eles mal conhecem a cidade. Se a visitaram ou se mesmo residiram nela, nunca lhes foi possível passar das ruas principais e daquela em que estiveram morando; de forma que lhe ignoram as necessidades, os defeitos a corrigir, a sua história, a sua economia e as queixas de sua população.

Houve um prefeito de policia que, vindo diretamente da província das Jazidas para a sua prefeitura em Bosomsy, nada sabia da cidade, nem mesmo as ruas principais. Metódico, econômico, por estar muito preocupado em desagravar as suas propriedades, de hipotecas, nos primeiros meses de sua gestão limitava-se a ir de casa para a Prefeitura no seu automóvel oficial, e voltar dela para a sua residência, também no seu automóvel burocrático.

Certo dia cismou em percorrer, a pé, um dos mais centrais boulevards da cidade. Esta recente via pública corfava muitas outras estreitas da antiga cidade e, em todas as esquinas, ele encontrou os urbanos (guarda civis) nos seus postos. Todos estes modestos policiais da cidade o cumprimentavam respeitosamente e o Prefeito ficou muito contente com a sua administração. Chegou, porém, em um dado cruzamento de rua donde, de uma estreitinha, tanto da direita como da esquerda, saíam e entravam magotes de povo. Que reboliço será esse? pensou ele. Será uma greve? Um motim? Que será?

O prefeito, assustado, medita logo providências, quando se lembra de pedir ao urbano explicações diretas, sem ir pelos canais competentes:

— Que quer dizer tanto povo aí, nessa rua? perguntou ele esquecido da celestial altura em que estava.

— Não há nada, senhor prefeito. É sempre assim, acudiu o urbano, levando a mão ao boné.

— Como?

— Vossa Excelência não sabe que esta é a rua mais transitada da cidade, e que é a antiga Rua do Desembargador?

O prefeito não conhecia, senão de ouvido, a rua mais célebre do país, dentre todas as ruas célebres das suas principais cidades.

(continua...)

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