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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

O homem da polícia replicou muito ingenuamente:

— Estes nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, quase todos são de “cáftens”. Não falha!

Disse-lhe o russo então que não era, nem nunca tinha sido, mas o homem não acreditou e insistiu:

— Se você não é “cáften”, é anarquista.

Houve muito trabalho por parte do adventício para tirar a autoridade da sua singular idéia:

— Estes nomes em “itch”, em “off”, em “sky”, polacos e russos, quando não são “cáftens” são de anarquistas.

Mostrou Bogoloff os documentos; e, afinal, depois de muita hesitação por parte da autoridade pode pisar a terra aonde viera procurar liberdade e sossego, mais que fortuna e felicidade.

O Dr. Chaveco continuava a dormir serenamente recostado à almofada do carro. As suas longas barbas tinham um doçura patriarcal. A sua pele estava queimada do sol e o seu ar era doce, bom e feliz. Era um pastor bíblico em que o luar punha a pátina da eternidade; e esse pastor bíblico tinha nas mãos a segurança, a ordem, a liberdade de uma vasta aglomeração humana de um milhão de almas.

Lembrou-se ainda Bogoloff das dificuldades do seu desembarque... A lembrança se esbatia no tempo; as suas linhas tinham perdido a nitidez... Como estava longe! Olhou o céu. A lua se mostrava por entre os flocos de nuvens que corriam doidas. A cidade dormia tranqüila, serena, satisfeita e a vontade dele era de que ela continuasse a dormir assim pelos séculos em fora...

CAPÍTULO VI

— Sim... sim... como?... como votar?... entendi... bem... o líder como vota?...

questão aberta?... bem... já?... daqui a meia hora... entendi... vou ver... não demoro... respondo já... não me esqueço... sim... sei... bem... já disse... eu sei. Numa! sei... Até já...

E descansou o fone no gancho durante alguns instantes. Esperou que a ligação se desfizesse e pediu nova:

— Minha senhora... alo... meia dúzia zero quatro leste... sim! Leste...

Aguardou um momento e continuou:

— Alo! Alo! Quem fala! ... Ah! É você, Benta?... Benevenuto está?... vai chamá-lo ao aparelho... de que casa?... da minha casa... sim... espero.... vai...

Não houve grande demora e Edgarda com o fone ao ouvido, o lado esquerdo voltado para o aparelho, a cabeça meio inclinada, perguntou ternamente:

— É você, Benevenuto?... bem... é você?... já sei... não é para já... hoje?...

não posso... não se perde por esperar... não tenho podido... quem está aí?... bem... uma coisa... Numa pergunta como deve votar no projeto de acumulação... diziam que queria... sim, o governo!... agora?... não faz questão... sim... que acha você?... entendi... bem... como? contra?... não... sim... ele quer vetar?... ficar simpático... compreendo... faz passar por portas travessas... sou inteligente... no telefone, só, não, seu “trouxa”!... entendi... faz passar e veta... entendi... fica com a simpatia dos interessados... então? como?... sim... se for nominal, contra; se não for, a favor... magnífico... vou... precisa cuidado... sei... creio... não se cansa... sei...adeus!

Orientada, pediu de novo ligação para a Câmara e pode Edgarda resolver a dificuldade política em que se achava seu marido. A necessidade de provar dedicação ao general Bentes obrigava todos os seus adeptos e admiradores a meditarem muito no levar a efeito o mínimo ato. Disputavam-se no agradecimento do estadista inesperado os políticos de todos os matizes. Os que estavam em cima e não queriam de forma alguma dar o mínimo sinal de que o seu apoio era simulado ou a contragosto; e os que estavam em baixo, apressados em ficar por cima, corriam parelhas com os adversários, dando sempre mais do que eles tinham dado.



(continua...)

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