Por Aluísio Azevedo (1891)
— Oh! exclamaram com surpresa, ao vê-la chegar. Sê tu bem-vinda!
— Eis Alzira que volta! Viva a formosa Alzira!
— Sim, respondeu ela; eis-me de novo convosco, meus queridos e eternos camaradas! venho de novo reclamar o meu lugar e a minha taça nos vossos belos e misteriosos festins!
— Supúnhamos que não voltasses, observou um esqueleto.
— Mal havias chegado, fugiste logo... acrescentou outro.
— Ausentas-te de nós tão chorosa e tão triste!... interveio um terceiro.
— Mas volto alegre como vêem!... declarou ela.
— De onde vens?
— Do mundo dos vivos.
— Da terra?... exclamaram todos.
— E verdade, amigos, venho da terra...
— E que foste lá fazer?...
— Buscar o meu amante. Cada um de vós tem junto de si a pessoa amada; eu precisava também ir buscar aquele por quem minha alma se apaixonou. Ei-lo!
E tomando Ângelo pela mão, apresentou-o à roda.
Ângelo saudou-os com um amável movimento de cabeça. Mas os espectros mediram-no com um revesso olhar de desconfiança.
— Parece um vivo!... objetou um deles, considerando-o da cabeça aos pés.
— É, infelizmente é um vivo!... confirmou Alzira com ar de tristeza. E por isso mesmo mais me custou a trazê-lo comigo...
— E como o conseguiste?...
— Indo a suplicar a Deus que mo confiasse durante as horas consagradas ao sono.
— E o Criador cedeu ao teu pedido?...
— Não! Cedeu às minhas lágrimas, cedeu à sinceridade do meu desespero, cedeu à eloqüência da minha dor! Quando minha alma, recendendo o aroma do primeiro beijo que recebi de Ângelo, penetrou nos céus e foi arrojar-se aos pés de Deus, todos os seus anjos choraram com a minha mágoa de amor, e uniram as suas vozes celestiais à minha súplica terrestre.
E, recuperando o ar de satisfação com que entrara:
— Ah! mas agora estou resplandecente de alegria.
E passou os braços em volta do pescoço do seu companheiro, e perguntou-lhe com a boca junto aos lábios dele.
— Não é verdade, meu Ângelo, que todas as noites, mal o sol se esconda, serás meu, só meu, para sempre, como aqueles dois velhos amantes de três mil anos que ali vão abraçados?...
— Quem são eles?... perguntou Ângelo, observando as duas sombras que ela indicava.
— Esope e Rodope. Mas, responde, amado da minha alma; não é verdade que durante as doze horas do dia pertencerás à outra vida, mas durante a noite serás todo desta, onde estaremos juntos?... Fala!
E, como percebesse que Ângelo se intimidava com a presença dos espectros:
— Confundem-te os nossos companheiros?... criança que és tu! pensas que ainda estás na outra vida! Aqui o amor não é um mistério ou um pecado... ninguém aqui dissimula o que sente, porque ninguém sabe fingir!... Olha! Não vês além, junto daquelas colunas, como aqueles dois se beijam?... Anda! Beija-me tu também!
— Sim, Alzira! respondeu Ângelo com transporte. Eu te amo, e estou disposto a nunca mais me separar de ti!
— Bravo! exclamou um espectro. Agora sim, Alzira, já não desconfiamos do teu amante. Ele pode ficar conosco!
— Foi a tua última paixão?... perguntou à condessa uma dama sepulcral.
— Ultima não — única! — respondeu aquela. Só a este amei na outra vida!
este será o meu amor eterno! Desde a vez primeira em que o vi, minha alma voou logo para ele. Pertenço-lhe!
— Minha alma és tu! exclamou Ângelo. Sou todo teu! Só a ti amarei sempre!
— Bravo! Bravo! gritaram os outros. Ao amor! Ao amor! Ao amor!
E as taças tocaram-se freneticamente.
— Ao amante de Alzira! brindou um. Ao primeiro vivo que se animou a penetrar em nosso mundo ideal! Ao temerário Ângelo! — A Ângelo!
— A Ângelo
— Agora, amigos, acrescentou o espectro, continuemos os nossos idílios. Deixemos Alzira em liberdade com o formoso amante!
E o grupo dispersou-se, formando-se diversos pares, que se afastaram, segredando palavras de ternura.
Alzira passou o braço nas espáduas de Ângelo, e os dois começaram a percorrer o estranho lugar em que se achavam.
Penetraram na extensa galeria que se desdobrava ao fundo.
— Onde estamos nós agora, minha querida?... perguntou Ângelo, penetrando na galeria de ossos e olhando em torno de si. Que estranhas sombras são estas que se cruzam em volta dos nossos passos?... Quem são aqueles espectros que conversava n conosco? ...
Alzira chegou a boca ao ouvido dele. para dizer-lhe: — São as minhas iguais e os seus respectivos amantes ...
— As tuas iguais?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.