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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ambrosina sobressaía dentre a multidão de pares como verdadeira rainha da festa. Irrepreensível de elegância e dispendiosa simplicidade, trajava um vestido inteiriço de cassa branca, cujas rendas e bordados de alto gosto pareciam beber a fria doçura das pérolas em que ela trazia agrilhoados cabelos e garganta. A justeza da roupa dizia lucidamente a flexibilidade das suas primorosas formas, fazendo destacar o contorno dos quadris, a volta das espáduas e a delineação rafaélica dos seios.

Nunca estivera tão encantadora. Gabriel não lhe tirava os olhos de cima, enquanto Gaspar bocejava ao fundo do coupé

Ambrosina vinha de vez em quando à janela, e olhava para a rua com a impaciência de quem espera alguém que se demora.

— Conta comigo! dizia Gabriel, apertando as mãos uma contra a outra.

Mas, pouco depois parou à porta do comendador um carro de gosto distinto, puxado por bons cavalos, e em seguida apeou­se um cavalheiro alto, um pouco magro, elegante, barba parisense, lunetas escuras, cabelos muito rentes.

Ambrosina, ao reconhecer o carro, estremecera.

O recém­chegado produziu sensação ao entrar no baile.

O comendador foi recebê­lo com vivo interesse, e apresentou­o logo a vários grupos. Percebia­se que o novo conviva era estranho para a maior parte das pessoas que ali estavam.

Ambrosina não voltou mais à janela.

— Era por aquele maldito sujeito que ela esperava! considerou o pobre Gabriel, cheio de agonia.

O novo personagem de resto, dera o braço à filha do comendador, e percorria as salas. Ambrosina mostrava­se radiante de satisfação.

Dançaram depois uma valsa, acabada a qual, foram ausentar­se ao terraço, conversando.

Gabriel não podia do carro ouvir o que diziam, mas pelos gestos parecia que os dois conversavam animadamente.

Alguém foi para o piano e cantou; dançou­se depois nova quadrilha, depois uma valsa. E os dois conversavam ainda no terraço.

Gabriel arquejava.

Entretanto, o belo par de Ambrosina levantou­se, e conduziu pelo braço a sua dama para o jardim.

Gabriel espichou o pescoço, e viu afastarem­se os dois, a passo descansado, por entre as árvores frouxamente tocadas de luz. Havia iluminação em torno das estátuas e dos floridos canteiros.

O venturoso par ia desaparecendo cada vez mais.

Só Gabriel percebia ainda, de vez em quando, o vulto indeciso de Ambrosina, que alvejava por entre as moitas de roseiras.

Não se pôde conter por mais tempo; apeou­se do carro, com a necessária cautela para não acordar o padrasto que dormia sobre as almofadas, e daí a pouco penetrava no jardim do comendador por um portão que havia aos fundos da casa.

Ambrosina assentara­se afinal com o seu invejado par debaixo de um caramanchão; Gabriel, donde estava podia observá­los à vontade.

Falavam de amor os dois. Ela enlevada, e ele cheio de entusiasmo; o casamento entrava na conversação como assunto já resolvido.

— És minha vida! dizia o rapaz; és toda a minha esperança! Ardia por tornar a ver­te!

— Leonardo! murmurou Ambrosina. Olha que nos podem ouvir, meu amor...

— E a mim que importa? Não tenciono porventura ligar o meu destino ao teu? Não és quase minha esposa, ou mudarias tu de intenção durante a nossa ausência?

— Bem sabes que não, mas é que ainda somos apenas noivos, e tu me perturbas com essas palavras!...

— Não me recrimines, amada de minh’alma! Há tanto tempo que não estávamos a sós!... deixa que aproveite estes fugitivos instantes para te falar de nossa felicidade.

E Leonardo, puxando para si Ambrosina, passou­lhe o braço na cintura.

Ouviu­se em seguida estalar um beijo. Um? não; era a harmonia de dois: o dele e o dela.

Gabriel, com um doido arranco, afastou a moita de roseiras que lhe ficava em frente, e de chofre se precipitou entre ambos.

— Miseráveis! exclamou.

Houve nos dois amantes um espasmo de surpresa. Ambrosina em seguida soltou um grito, fugiu para a sala.

— Quem é o senhor?! perguntou Leonardo, medindo.

— Sou o homem que ama aquela mulher! respondeu este, pálido de raiva.

— O homem não: a criança! Já tinha noticias suas. Chama­se Gabriel, é rico, deseja casar com Ambrosina e...

— E não meço obstáculos quando quero realizar qualquer cousa!

— Bem; mas nada disso o habilita para dizer­me insolências. Chamo­me Leonardo Pires de Andrade, há muito amo Ambrosina; não sou tão rico como o senhor, mas antes de partir nesta minha última viagem, fui autorizado a pedi­la em casamento. O comendador cedeu­ma ontem...

— É falso!

— Contenha­se! O senhor está fora de si. Ambrosina já me tinha prevenido dos seus rompantes...

— Senhor!

E Gabriel deu um passo para o outro.

(continua...)

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