Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
E o pior é que têm aparecido bastantes cópias desse modelo fatal!
O Passeio Público do Rio de Janeiro entrara, portanto, definitivamente, em uma época de decadência.
D. Fernando José de Portugal, depois marquês de Aguiar, sucessor do conde de Resende, nenhuma providência tomou a favor do infeliz jardim público, e nem ao menos socorreu o coqueiro de mestre Valentim, que se ia desgalhando e quebrando, e fazendo convencer a todos que os governos desmazelados são mais funestos do que os mais desabridos furacões e as mais furiosas tempestades.
A D. Fernando José de Portugal sucedeu no vice-reinado do Brasil, D. Marcos de Noronha de Brito, conde dos Arcos, a quem também o Passeio Público não ficou devendo grande coisa. Este vice-rei limitou-se a substituir por um busto de Diana em mármore o famoso coqueiro, que assim perdeu o domínio da cascata.
A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, não mudou a fortuna adversa do Passeio Público. Antes, deu lugar a que se concebesse a idéia de se lhe opor um rival, e de feito, mandaram-se encetar os trabalhos necessários para ser transformada em um jardim público uma parte do campo então chamado de Santana. O pensamento era louvável e utilíssimo, sem dúvida; mas os cuidados que por algum tempo mereceu o novo passeio em projeto não deviam fazer olvidar o passeio antigo já pronto e estimado do povo.
Não quero, porém, deixar de fazer completa justiça ao governo dessa época: se ele não cuidou suficientemente, se não fez renovarem-se as tardes amenas e as belas noites do Passeio Público, ao menos não desprezou este estabelecimento, como os últimos vice-reis o tinham desprezado.
Dois fatos servem para demonstrar a minha proposição.
Encontrava-se naquele tempo o ilustre carmelita Frei Leandro do Sacramento, que era um fluminense notável por sua ilustração e um naturalista muito distinto, dando lições de botânica no Passeio Público, em um edifício oitavado muito elegante (diz o Padre Luís Gonçalves dos Santos), que para esse fim ali se construiu do lado do largo da Lapa.
Se o edifício oitavado é um dos que ainda se acham no Passeio, protesto contra a idéia da elegância. Fosse, porém, qual fosse, aplaudo a criação daquela aula de botânica, onde o nosso Frei Leandro contava a história do reino vegetal à sombra das árvores e no meio das flores.
Foi uma aula de botânica que deu alguns excelentes discípulos, que depois vieram a ser mestres. O Brasil perdeu, ainda há poucos anos, um deles no Dr. Joaquim José da Silva.
Em 1817, reconheceu-se que o terraço do Passeio Público se achava tão arruinado pela violência dos embates das ondas, que não era mais possível adiar a sua reconstrução. Tornara-se indispensável pagar a incúria dos últimos governos com uma despesa avultada.
Meteram-se mãos à obra.
O terraço teve de passar por uma reforma geral e completa, e conseqüentemente foram sacrificados os pavilhões quadrangulares, e com eles as Estátuas de Apolo e de Mercúrio de Mestre Valentim e os delicados trabalhos de conchas, penas e escamas do Mestre Xavier.
É verdade que, segundo escreveu o Padre Luís Gonçalves dos Santos nas suas Memórias do Brasil, “espera-se que os novos mirantes que se haviam de levantar tivessem os mesmos ornatos que os antigos”. Mas, também, é verdade que essa lisonjeira esperança não se realizou, e até perderam-se os vestígios das Estátuas de Valentim e dos pássaros e dos peixes do Xavier das Conchas.
A reforma tinha sido, por certo, determinada com a melhor intenção. Como se vê, porém, acabou do modo o mais triste, com a profanação da arte.
No terraço ficou somente intato o menino que segurava o cágado. Talvez merecesse então piedade por ser criança. Mas, coitadinho! Coube-lhe mais tarde uma sorte igualmente lamentável.
Tais foram os dois fatos que marcaram no Passeio Público do Rio de Janeiro aquela época, que, aliás foi de tanto progresso para o Brasil: uma aula de botânica que pouco tempo durou, e que ainda assim produziu excelentes frutos, e uma reforma que se pareceu muito com aquelas emendas que saem piores do que sonetos.
Decididamente, desandava a roda da fortuna para o Passeio Público; porque nem lhe valeram a declaração da independência do Brasil e o grau de capital do novo império assumido pela cidade do Rio de Janeiro.
As belas noites estavam de todo esquecidas. A rua que aquele
nome tivera já desde alguns anos se chamava das Marrecas, em honra da fonte
onde a água corria dos bicos de cinco marrecas de bronze. Essa fonte, porém,
nem mesmo era uma novidade, porque a data da sua construção coincide com a do
Passeio Público. A mudança do nome da rua teve, pois, outro motivo, que não foi
senão o arrefecimento do amor pelo Passeio Público, em conseqüência do abandono
em que este caiu desde o tempo do conde de Resende.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.