Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Ouvindo isso, Geraldo-Risota começou a soltar tantas e tão continuadas risadas que esteve o ponto de cahir do banco onde se achava sentado. Innocencio susteve-o, e pedio-lhe que se lembrasse da promessa que fizera.
— Deixa-me rir ! deixa-me ! não sabes quanto me custou estar sério por tanto tempo ; mas disseste cousas que hão de fazer-me rir durante um anno.
III.
No dia seguinte, das seis para as sete horas da tarde, Geraldo e Innocencio dirigirão-se á chácara de Fagundes.
Era curta a distancia que tinhão de vencer, mas ainda assim o padrinho e o afilhado aprveitarão o tempo conversando.
— Innocencio, disse Geraldo, preciso que meprevinas do papel que pretendes representar para com a familia de Fagundes.
— Que papel pretendo representar ! essa é boa, meu padrinho ; eu quero e hei de sempre apparecer e mostrar-me tal qual sou : dir-se-hia que vossa mercê suppõe que se trata de representar alguma comedia!
— Rapaz, o mundo é um theatro immenso onde os homens, quer em relação á politica quer em relação ás suas profissões, ás sociedades que frequentão, e até á propria religião, são comicos mais ou menos habilidosos. Todos representão, e muitos ou quasi todos o fazem até mascarados.
— E com que fim ?
— Com o fim de ver quem mais engana os outros e mais se aproveita da credulidade alheia.
— E meu padrinho queria então que eu também por minha vez voltasse as costas á verdade, esquecendo o dever da lealdade e da franqueza, e me desfigurasse com a mentira?...
— Eu não disse que o queria; apenas perguntei o que pretendias fazer : não te aconselho a que te deixes corromper e te des-moralises, mas também se te visse já enfeitado com uma certa perfídia e desmoralisação elegante, que tanto aproveitão aos grandes e poderosos da terra, não trataria de corrigir-te, porque vejo que é com esses enfeites que melhor se arranja a vida e se passa bem no mundo.
— E meu padrinho pratica também assim ?...
— Eu não, mas eu já não sou desse mundo ; ou mesmo quem sabe se as minhas repetidas gargalhadas não são uma espessa mascara com que escondo o pezar de mil decepções e desenganos ?... Está dito :. eu também represento o meu papel de Democrito.
— Ah!
— Mas ainda ha pouco disseste uma grande asneira perguntando-me se eu queria que te desfigurasses com a mentira : as mentiras do bom tom não desilgurão, esmaltão, e era possivel que te quizesses esmaltar com algumas dessas mentiras aos olhos da família do meu amigo Fagundes.
— Por exemplo...
— Por exemplo, podias querer passar por fidalgo, e em tal caso inventarias dez historias a respeito da sublime procedência de teus avós : para um moço que deseja recommendar-se á sua noiva e aos pais della, isso não era de todo novo nem mal pensado. Actual-mente, a fidalguia vai creando azas e tomando uns ares que fazem medo; o que vale é que os nossos fidalgos arranjão-se ás duzias e apresentão-se tão caricatos que fazem rir. Podias também, e isso era mais importante ainda, querer passar por herdeiro futuro de uma riqueza colossal, dizendo em tal caso que tua mãi possue dez fazendas em vez de uma só : em questão de casamento uma mentira deste gênero esmalta admiravelmente um noivo e impressiona de um modo indizivel os pais da moça.
— E depois?...
— Depois de arranjado o negocio, os illudidos que engulírão a pílula, calão-se porque se se animassem a fallar e protestar...
— Que aconteceria?...
— O mundo rirse-hia delles, e eu, mais que todos, soltaria enormes gargalhadas.
— Pois eu nunca me servirei da mentira nem da perlidia para alcançar o que
desejo.
— Farás bem e farás mal ; alcançarás uma coroa no reino do céo, mas has de levar muita pateada nos reinos da terra.
— Então a virtude já fugio espantada e corrida deste mundo ?...
— Não : ainda se sustenta nelle, resistindo ao triste espectaculo da prepotência, do patronato, da traição, da infidelidade, e do vicio, que muitas vezes campeião triumphantes; ainda resiste e
resistirá sempre, e é por isso que é virtude.
— Ainda bem ! meu padrinho já acredita em alguma cousa!
— Pois eu deixei algum dia de crer na vir tude, na honestidade e na honra ?... O que eu digo é que, sendo poucos os virtuosos, ando sempre a rir e sempre desconfiado, ao ver a multidão de gente que anda a toda hora impondo de virtuosa.
Geraldo e Innocencio chegarão nesse momento ao portão da chácara de Fagundes, e dahi a pouco baterão palmas á porta, e o primeiro exclamou:
_ Licença para um padrinho que traz comsigo o seu afilhado !
É inutil dizer que Geraldo e Innocencio fôrão recebidos com a maior alegria.
— O Sr. Innocencio não precisava de apreentação, disse
Fagundes, é já nosso amigo e deve-nos muita estima.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.