Por José de Alencar (1872)
Daniel, subitamente arrancado ao seu enlevo, compreendeu o susto da mestra.
No trêmulo olhar que lhe permitia o chouto valente da mula, viu o grosso volume da inglesa aos trambolhões na sela, e por tal modo, que ia a despencar-se ao chão, e só por milagre escapara até aquele momento.
Bem quis o Daniel parar a mula e apear-se para acudir a tempo; mas ainda uma vez convenceu-se que nem sempre governa o de cima. Quando ruminava essa reflexão filosófica, ouviu-se um gemido, e a inglesa adernando então completamente como uma corveta inglesa de quarenta canhões, despenhou-se da sela abaixo.
Deu-se nesta ocasião, porém, um incidente, que precisa de explicação.
As mulas em que vinham os quatro companheiros de passeio, eram as baias do tiro do comendador Soares, acostumadas a trabalhar juntas, quando a vitória ia à Tijuca ou ao Jardim, puxada a quatro. Naquela manhã, crescendo o número dos passeantes, foi necessário recorrer a esses animais, que passavam por dar sela.
A “Gatinha”, que era a mão da primeira parelha, tocou a Mrs. Trowshy; e a “Sinhá”, sua companheira, ao Daniel. Da Segunda parelha deram a da mão ao visconde, que por exceção naquele Domingo arvorou-se em passeante, e meteuse no meio da rapaziada; a da sela ficou para o Benício.
Ora, desde o princípio do passeio que as mulas procuravam emparelhar-se, como de costume; mas a “Gatinha”, fustigada pela inglesa, metera-se entre as duas da outra parelha; e a “Sinhá”, a quem o Daniel trazia bem esticada a rédea, era obrigada a ficar atrás.
Com o susto, soltou o criado de todo a rédea; de modo que a “Sinhá”, metendo o focinho, alongou-se pelos ilhais da companheira, e tão a tempo, que o busto respeitável da matrona, ao virar de querena, encontrou o toro magriço mas rijo do Daniel, que lhe serviu de espeque.
Emparelhadas e de rédeas soltas, as duas mulinhas despregaram pelo macadame um trote bonito, que era o orgulho do cocheiro do Soares, mas nesse momento causava o desespero do Daniel, agarrado ao arção para escorar a rotunda que desabara sobre ele.
Todavia, ao cabo de alguns instantes sentiu que ele próprio ia aluir-se ao peso da carga; na sua aflição gritou aos outros:
- Acudam, ó senhores, que eu só não agüento!
O visconde e o Benício, cuja parelha trotava no coice da outra, como se a prendessem os tirantes e guias da carruagem, não pediam aos céus outra coisa senão que lhes fosse dado parar as mulas e pôr um termo àquele chouto formidável, que ia com certeza esmoer-lhes os ossos e bater-lhes manteiga dos miolos amassados dentro da cachola.
- Então, senhores! Exclamou o Daniel já esmagado, mas tentando um surto. Deixam cair a mestra de D. Guidinha? O principal cuidado do ilhéu era a sua esposa, ameaçada seriamente de ser despenhada com aquele desabe humano que por seguro o achatava em terra.
Na impossibilidade de sofrearem as mulas e fazê-las parar a fim de, apeados, acudirem ao Daniel e ampararem da queda a inglesa, os dois acólitos tiveram nesse transe supremo um rasgo heróico. Estendidos, quase deitados ao pescoço das baias, cada um inteiriçando o braço direito, meteu a mão a trambolho luso-britânico e o afincou na sela. Afinado cada vez mais no trote largo e cadente, o tiro das mulas despejou o caminho às braçadas, conduzindo em charola a grotesca penca dos quatro; e com pouca demora apanhou a luzida comitiva, que já tinha moderado o primeiro ardor.
Ao dar com o grupo cômico, digno de uma farsa eqüestre em circo de cavalinhos, despregou-se o riso de todos os lábios, e uma gargalhada estrepitosa rolou pelas quebradas da serra, como a cascata grande da Tijuca a espadanar por entre os fraguedos.
Topando com outros animais, as baias moderaram o entusiasmo e afinal estacaram, pois a um aceno de Guida alguns cavaleiros tinham saltado ao chão a tempo de apararem na queda a cambulhada humana, que já de todo pendurada sobre as ancas da “Sinhá” ia finalmente despencar-se.
Concertada a marcha da comitiva, continuou ela a passo por algum tempo, não só para dar respiro à batida dos animais, como sobretudo para que Mrs. Trowshy e os seus companheiros de tiro tornassem a si da esfrega e pudessem de novo soldar-se na sela.
Na frente ia Guida, montada no “Galgo”, que ela governava com a mesma elegância e correção do costume, mas com certa prevenção que se revelava na firmeza do gesto e vivacidade do olhar. Ela sentia que não tinha de haver-se com a arrogância aristocrática do filho de Álbion, mas com a briosa independência do árdego curitiano.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.