Por José de Alencar (1875)
— Jó! Queres ouvir?
— Fala.
— Não é ouro, nem riquezas, que eu receio perder; é outro bem e mais precioso.
— A tua alma? perguntou o velho cravando os olhos no mancebo.
— A minha alma, sim.
— Pecaste, filho?
— Não; minha mão está pura, mas duas vezes hoje ela escapou de manchar-se no sangue de meu semelhante. Uma vez foi para defender a vida do capitão-mór; devia ferir?
— Devias, filho. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
— A outra vez foi para defender-me a mim.
— Ameaçaram tua vida?
— Quiseram roubar-me o que mais amo neste mundo.
— Tua mãe?
— Não.
— Uma mulher?
— Sim.
— Os antigos cavalheiros tinham por timbre disputar a dama de seus pensamentos nos torneios e desafios, e o vencedor recebia em prêmio a mão da mais formosa. Êsses tempos vão longe; agora não é mais com a espada e a lança que se rendem as donzelas.
— Em meu caso, tu que farias, Jó?
— Já não sou dêste mundo.
— Mas outrora? Foste moço um dia: teu coração há de ter amado uma mulher; nesse tempo de tua mocidade, que farias?
— Não me perguntes, filho, que não me lembro mais do que fui: pergunta a teu coração, que é moço e vive; o meu está morto.
— Já perguntei; e êle respondeu-me.
— O que, filho?
— Não te direi, não; nem a mim mesmo eu tenho coragem de repetí-lo.
— Pensa em tua alma, Arnaldo.
— O que é minha alma sem a sua adoração, Jó?
Arnaldo demorou-se na caverna até a tarde, quando despediu-se do velho e ganhou a mata.
A essa hora já os acostados da fazenda que o capitão-mór enviara à sua procura, desenganados de encontrá-lo, ou tinham voltado à casa ou andavam longe a bater o mato. Não obstante, êle aplicou o sentido, para verificar se não havia coisa suspeita.
Percebeu então um rumor cadente que se aproximava como o som rijo e breve da pata de um animal no solo duro. Arnaldo conheceu quem era que o procurava e atinou com o motivo:
— É a mãe que soube e afligiu-se.
Tinha parado à espera. Com pouco surdiu dentre a ramagem a comadre, que chegando perto de seu filho de leite, levantou a pata dianteira para acariciá-lo; depois do que fitando nele os olhos, voltou a cabeça para trás na direção donde viera.
— Já sei, respondeu o rapaz afagando o pescoço da cabra; foi sua comadre que mandou chamar-me e aí vem. Não é?
Fazendo um aceno ao inteligente animal, Arnaldo foi ao encontro da mãe; esta que vinha perto correu a abraçá-lo, apenas o avistou.
— Jesús! Filho de minha alma! Que foi isto com o sr. capitão-mór, meu Deus? Uma coisa que nunca, nunca sucedeu, em dias de minha vida, nem de teu pai, havia de suceder agora contigo, por minha desgraça! Tu perdeste o teu bentinho? Não, aquí está. Então foi por que te esqueceste de rezar?
— Quando menos se espera, vêm os dias maus, sem que se ofenda a Deus. Nós vivíamos felizes há tanto tempo, mãe!
Arnaldo proferiu as últimas palavras com a voz comovida, e apoiou a fronte na face da cabreira, que lhe tinha lançado os braços ao pescoço para conchegá-lo a si.
— Graças à Virgem Santíssima, ainda se há de remediar tudo. Tenho fé na minha Senhora da Penha, ela que sempre me tem valido.
Ergueu Arnaldo a cabeça com gesto brusco e arrancou-se dos braços da mãe, para aplicar toda atenção ao estrépito que lhe ferira o ouvido. A mãe sorriu com disfarce.
— Flor? interrogou o sertanejo em tom submisso.
Justa afirmou com a cabeça.
XVIII – Desengano
Arnaldo traspassou com o olhar a espessura da folhagem que lhe ocultava a formosura de D. Flor, e instintivamente retraiu-se com o enleio em que sempre o lançava a presença da donzela. Justa o deteve, segurando-lhe o braço e apontando para dentro do mato.
— Ela falou ao pai. O sr. capitão-mór, tu bem sabes, não tem ânimo de recusar nada àquela filha, que é a menina de seus olhos. Então prometeu que, se hoje mesmo voltares arrependido à sua presença para suplicar o perdão de tua falta, êle esquecerá tudo.
Arnaldo talhou a mãe com um gesto de enérgica repulsa:
— Não cometí nenhum crime para carecer de perdão, mãe.
Justa denunciou no semblante a estranheza que lhe causavam as palavras do filho:
— Pois não desobedeceste ao sr. capitão-mór, Arnaldo?
— Para desobedecer-lhe era preciso que êle tivesse o poder de ordenar-me que fosse um vil; mas êsse poder, êle não o possue, nem alguém neste mundo. O sr. capitão-mór exigiu de mim que lhe entregasse Jó, e eu recusei.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.