Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Ouvindo as primeiras harmonias dessa feiticeira inspiração de Auber, o Domino-noir (que foi exatamente a ouverture, com que se deu princípio ao sarau), Honorina sentiu um choque inexplicável... depois... sempre... até o fim se foi ela animando... seu coração pulsando com mais força... sua alma pareceu inflamar-se... seu rosto ergueu-se e ela começou a viver para o mundo onde estava.
Enfim, todo esse movimento, todo esse ruído de um sarau, o calor que fazia, a agitação das contradanças, cuja alegre música podia tanto nela, acenderam ainda mais o fogo que a salvara de seu acanhamento; já tinha as faces levemente coradas... seu peito arfava... ela começava a gostar de tudo o que via... seu cavalheiro já lhe havia jurado que ela era encantadora... Honorina já se tinha sorrido para Raquel... estava alegre, estava feliz; e sua alegria a tornava mais bela que nunca.
Mas o centro, o alvo das atenções dos homens deveria ser o dos ciúmes, pelo menos da maior parte das senhoras. Lucrécia vivamente se incomodava com os obséquios que a via receber; e tanto mais que Lucrécia era realmente bela, e dobradamente orgulhosa. Flor das sociedades, não cedendo até então a primazia a nenhuma, Lucrécia queria todos os homens a seus pés; e nessa noite Honorina lhe conquistou a maior parte dos seus adoradores.
Além disso, um episódio tinha ocorrido, que convém não deixar passar desapercebidamente. Otávio havia chegado pouco antes de Honorina, e se esquecera de ir logo aos pés da bela viúva; quando a filha de Hugo de Mendonça entrou e se sentou junto de Lucrécia, Otávio correra e obtivera daquela a sexta quadrilha, e só depois foi que se dirigiu à sua bela amada, pedindo-lhe exatamente uma contradança que ela acabava de conceder a outro cavalheiro. Ora, Lucrécia sabia bastante dos segredos dos saraus, que muitas vezes, quando um jovem não quer nem dançar, nem ofender o amor-próprio da senhora a quem um dever qualquer o obriga a dirigir-se, manda um amigo seu convidá-la para certa quadrilha, e depois vai ter com ela e pede para si essa mesma quadrilha, que, incauta já deu a outro.
Esta idéia, a lembrança desse estratagema tantas vezes posto em uso, feriu cruelmente o orgulho da viúva; portanto, Otávio levantava acima dela essa menina, que apenas acabava de aparecer!... isso era uma dessas ofensas que as senhoras jamais perdoam; e, entre as senhoras, o amante que se esqueceu de uma delas, comete um crime enorme, que se faz expiar, não ao desleal que o cometeu, mas à rival, ainda inocente, que o causou. E, pois, Lucrécia, que se sorria, que tinha doçura angélica em seus belos olhos azuis, tinha ao mesmo tempo o despeito e o amargor no coração.
No gabinete onde estava a música, e em que se achava também o piano, apareceu uma moça para cantar, e começou a deixar ouvir os belos acordes de sua doce voz; uma coluna de moços tomava a porta do gabinete.
— Parabéns! disse um àquele que conduzira a moça ao piano, parabéns ao condutor de
Euterpe!...
— Que se há de fazer?... respondeu ele, eu cá tolero que se cante, quando não há mais nada que fazer; porém agora, que podemos dançar e conversar com as moças, é mesmo horrível roubar-se-nos meia hora desse prazer para se ouvir aquela senhora!...
— O que é aquilo que ela está cantando?...
— Eu não sei... parece-me inglês; mas deve ser uma ária italiana: — bravo, minha senhora!...
— E que bico faz ela: bravíssimo!...
— Como desafina: bonito! bravo!...
Os dois senhores continuavam a falar desapiedadamente em voz baixa contra a moça que lhes fazia a honra de se deixar ouvir, ao mesmo tempo que em voz alta aplaudiam; mas... é preciso passar isto por alto, porque há tantos homens que se podem julgar retratados nestes dois Midas, que é bom não entender com eles.
A moça concluiu a sua ária no meio de bravos e palmas, e foi conduzida à sua cadeira pelo mesmo cavalheiro que dela criticara em voz baixa.
— Parabéns, minha senhora, dizia ele à moça; cantou mais que brilhantemente!... que harmonia, e que execução!... seria perdoável perguntar a V. Ex.ª se não podia repetir a mesma peça esta noite?...
— Oh!... a mesma não, respondeu a moça; eu cantarei outras, que são igualmente bonitas.
— E quantas serão, minha senhora?...
— Talvez... ainda três...
— Meu Deus!... por que não serão antes seis!...
Mas um sinal da orquestra pôs fim às lisonjas e zombarias de que estava sendo vítima a inocente senhora; era o sinal brilhante e vivo da valsa.
A valsa! sim, a valsa é com toda a razão o delírio das moças e o belo ideal dos moços em um sarau. Acusem-na muito embora os senhores Esculápios (que aqui para nós, nada há com que se não intrometam) como causa de enfermidades sem-número; amaldiçoem-na muito embora como origem de mil pleurites, hepatites e tudo mais que na sua benta língua acabar em “ites”, se é assim... melhor para eles.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.