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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Amava a saudade; não era a mulher; amava o passado e que lá se perdeu. À luz que então me via não poderá ver-me jamais. Eu hei de ser sempre a esposa ou a viúva dum homem que me lançou de si com desprezo... E, depois, a gratidão das almas nobres, como a de Francisco, pode levá-lo a dobrar-me o joelho com admiração: mas, com amor, nunca. Eu sei isto, adivinho isto. Se eu vendesse a casinha única onde me abrigasse para lhe melhorar a sorte dele, essa dedicação sublime duplicaria o meu direito a ser amada; mas eu, quando bem penso no que fiz, duvido que me louvem os estranhos, e sinto esfriar a veemência de gratidão naquele mesmo por amor de quem me pareceu louvável o ato que pratiquei. Mas eu não queria que me agradecesse; queria até que ele ignorasse sempre, para eu não ficar desdourada. Vê por que tantas vezes lhe tenho pedido que não me descubra? E a minha amiga sempre a querer, sempre a instar que eu a deixe contar-lhe tudo. Oh! Não o faça, por piedade lhe peço que não lho diga! Se ele vier um dia a Portugal, basta que lhe faça saber que eu não fui má esposa... que fui caluniada; mas que não há no mundo quem possa provar que eu meditei um instante em justificar um crime com os exemplos de meu marido. Assim posso ser amada... e eu queria sê-lo, queria, minha amiga, porque dos dezasseis aos vinte e nove anos, vão milhares de dias e noites em que nunca esqueci seu irmão. Houve um tempo em que julguei mal, porque Deus lhe dera a virtude que esmaga o coração, porque o meu desatino queria ser excedido pela paixão do homem que me obrigava à voluntária pobreza, às injúrias de meus parentes, ao perdimento de um grande patrimônio e da herança de um nome nobre. Que me importava isso? Mas seu irmão, minha amiga, tinha riquezas superiores: a santificação da virtude, uma coisa que se adora de joelhos depois que se tem sido desgraçada, e se lidou seis anos com um homem de condição vil.

Nesse momento, Vitorina assomou numa janela, dizendo que estava um homem perguntando pela dona da casa.

― Será carta do Brasil? – perguntou Joana.

― Não é, - disse baixinho Vitorina – é uma pessoa asseada com barbas grandes. – E, voltando-se subitamente, soltou um grito, e disse para dentro:

― O senhor entra pela casa assim, sem esperar resposta?

O sujeito sorriu-se à indignação da velha, que não reconheceu, acercou-se da janela, debruçou-se para o quintal, e cravou espantados olhos nas duas senhoras!

― É ele! É meu irmão! – exclamou Joana.

― Oh, minha querida senhora, é ele!...

E correu para casa; mas Ângela ficara imóvel a olhar para Francisco, e ele imóvel apoiado no peitoril da janela, com os olhos fixos em Ângela.

A irmã abraçava-o, e ele, beijando-a na fronte, murmurou:

― Aquela é Ângela, não é?!

― Sim, meu filho, pois não é ela o mesmo anjo?! Vamos buscá-la, depressa, que está sem côr...

E desceram rapidamente, e chegaram já quando a esmaecida senhora caminhava a tardos passos para casa.

Costa ofereceu-lhe a mão convulsa. Ângela encarou-o muito amorável, apertou-lhe a mão, e disse com voz magoada:

― É a primeira vez...

E carregaram-se-lhe de lágrimas os olhos.

Depois, abraçou-se em Joana, apoiando-lhe a face no ombro.

Francisco permaneceu silencioso, abafado, num modo de existir, que seria o prelúdio da demência, se durasse muito, ou a congestão se não desafogasse no pranto involuntário.

― Dá-lhe o braço, Francisco... – disse Joana. – Ele parece que não acredita vê-la aqui, minha filha – continuou ela, sorrindo.

― E desde quando? – perguntou ele, tomando o braço de Ângela.

― Desde quando está aqui? – verificou a irmã, não percebendo bem a pergunta.

― Desde que não tenho casa – respondeu a hóspeda, sorrindo. – Desde que precisei da caridade da minha amiga de infância, e da sua beneficência, Sr. Costa.

Ocorreu Vitorina a dar uns tons de festa à chegada de Francisco, pasmando-se nele, nas grandes barbas, e na espantosa mudança que fizera, e no medo que ela tivera de que fosse um salteador, quando o viu romper por ali dentro.

Entraram para a saleta do trabalho, onde estavam armados dois bastidores.

― Aqui tens a nossa oficina – apontou a ridentíssima Joana. – Temos feito progressos e lucros admiráveis:

bordamos a ouro. A Sr.ª D. Ângela, em dez meses, ganhou quarenta e duas moedas.

― Está vossa excelência aqui há dez meses? – perguntou Costa à hóspeda.

― Penso que sim – confirmou Ângela.

Francisco, confrontando as datas, concluiu que tendo chegado ao Rio Hermenegildo oito meses antes, Ângela se acolhera a sua irmã logo que saiu de casa. Exultou, luzia-lhe nos olhos o muito sol que se lhe abrira na alma.

E a ponto vem dizer-se que o confidente último do brasileiro, desde que ao longe premeditou a redenção de Ângela, conjecturara que teria de procurá-la na ladeira onde vulgarmente pobreza e formosura impelem a mulher, nascida sem auréola santificante: - auréola de que já hoje ninguém vê resplendor, nem os romancistas propriamente se exercitam nesse gênero de inventiva, temerosos do descrédito de fantásticos e inverossímeis.

Do muito martelar nesta hipótese péssima, bem que trivialmente realizada no máximo número de lances análogos, causou-se que o lapso da desamparada senhora para os braços doutro homem, amado ou aborrecido, era a esperança infernal que preocupava o autor dos SONHOS, aquele olímpico vidente agora demudado em pessimista, com as asas da sua poesia mortas, e o espírito prostrado nas baixezas vulgares deste mundo. Figurou-se-lhe, por desventura, que uma mulher, que aspirara o ambiente de Hermenegildo Fialho, devia de ter empeçonhado o coração, apagada a flama celestial do espírito, e desbotadas as cores prismáticas por onde via o bom, o belo o santo da criação, antes de tocar a hediondez de tal marido. Duas angústias, pois, a um tempo o navalhavam: se a encontraria amante doutrem, e para si perdida; se vítima da necessidade na vulgar degradação de escrava, e perdida também para ele.

(continua...)

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