Por Lima Barreto (1922)
Essas suas sábias medidas, para recrutamento do seu pessoal, levaram para a sua secretaria moços bonitos e excelentes mediocridades, que ainda procuravam demonstrar a sua principal qualidade intelectual, publicando borracheiras idiotas ou compilações rendosas e pesadas ao Tesouro; entretanto, em certo e determinado sentido, foram profícuas, como teve ocasião de verificar o sucessor de Pancome.
Este, por ocasião de uma festa de sustância, encontrou nos amanuenses e oficiais da escola do visconde, soberbos estofadores, magníficos tapeceiros, exímios ornamentadores de salas; e, de tal forma um dado arrumou retratos nas paredes de seu salão, que o Ministro da Inglaterra ofereceu-lhe um bem remunerado lugar na domesticidade do castelo de Windsor.
O obstáculo do concurso fazia o visconde pensar a toda a hora e instante na vaga de amanuense, e ele já se resolvera a removê-lo por completo, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que fosse, quando, ao despachar o expediente daquele dia, lhe veio ter às mãos um requerimento com fotografias apensas.
Em geral, os ministros não lêem o que despacham; limitam-se a rubricar o despacho do secretário ou oficial de gabinete. Pancome não fazia exceção na regra, mas aquele papel, com fotografias, despertou-lhe a atenção. Leu-o. Tratava-se do bacharel Sune Wolfe, que requeria ser provido no lugar vago de amanuense; e, para que avaliar pudesse o senhor Ministro da sua beleza física, juntava aqueles dos retratos, um de perfil e outro de frente.
A secretaria tinha exigido selos de juntada em tais documentos e o despacho do secretário era nesse sentido. O visconde, como sempre, pouco disposto a obedecer às leis, não se incomodou; e, cheio de admiração pela boniteza do requerente riscou o despacho e escreveu com a sua letra um outro, determinando que o candidato comparecesse à sua presença.
No dia seguinte o rapaz foi ter com o ministro, que ficou embasbacado diante do lindo candidato.
De fato, era bonito, bonitinho mesmo, desbotado de cútis, e parecia até fabricado em Saxe ou em Sèvres. Tinha uns lindos dentes, um belo cabelo cuidado, não era alto, mas era bem apessoado. Merecia muito bem um bom casamento rico; contudo, o visconde quis melhor examiná-lo e perguntou:
— O senhor sabe sorrir bem?
O candidato não se atrapalhou e acudiu com firmeza:
— Sei, Excelência.
— Vamos ver.
E o lindo moço repuxou os lábios, entortou o pescoço de um lado, gracilmente, ajeitou os olhos e todo ele foi uma lindeza de impressionar o pacato secretário que, ao lado, assistia ao exame, completamente embrulhado em um fraque venerável e cheio de embevecimento.
Contente com isto, o ministro tratou de ir mais longe na experiência das excepcionais qualidades que o candidato revelava e convidou-o com voz paternal:
— Aperte a mão, ali, do Major Marmeleiro (o secretário). Faça o favor.
O examinando não se fez de rogado. Juntou os pés, curvou docemente o busto, levantou o braço e, sempre sorrindo, cumprimentou:
— Senhor Major Marmeleiro...
Pancome não cabia em si de contentamento com a sideral aquisição que estava ali. Que elegância! Que lindeza! Dessa feita é que ele ia fazer uma nomeação justa e sábia. Arre! Não era sem tempo...
Era preciso, porém, ver se o donzel conhecia algumas outras cousas de sociedade.
— O senhor sabe dançar? perguntou.
— Sei, Excelentíssimo.
— Vamos ver.
— Mas só e sem música, senhor visconde?!
Ordenou o ministro que o contínuo fosse chamar um certo empregado, exímio em dança; e, enquanto ele ia buscar o funcionário, disse Pancome a Marmeleiro:
— Você sabe assoviar, major?
O secretário estava sempre disposto a responder afirmativamente ao visconde e não se deteve um minuto:
— Sei, senhor visconde.
— Bem, disse Pancome, assovie aí uma valsa.
A "dama" já tinha chegado e Marmeleiro agora hesitava.
— Não sabe? indagou o ministro severamente.
— Só sei as "Laranjeiras".
— De quem é isso? perguntou Pancome.
— É do Hamélio.
— Não é lá muito elegante, considerou o visconde, mas... serve, serve!
Marmeleiro começou a assoviar com todo o recato que o lugar exigia — fiu, fiu, fiu... — e os dois dançaram com todas as cerimônias e ademanes dignos de gabinete tão diplomático e do respeito que merecia a presença daquele alto herói ministerial. Pancome verificou com um júbilo paternal que o tal Sune continuava a ser uma maravilha! Que soberbo amanuense ia ele ser! Bendita Bruzundanga que produzia daquilo!
Acabaram de valsar ao som do melodioso assovio de Marmeleiro, e o visconde falou, então, com mansuetude, ao candidato:
— Descanse um pouco, meu filho; e, depois, escreva-me uma carta ao ministro de Interior sobre a necessidade da Bruzundanga se fazer representar no Congresso de Encaixotamento de Pianos em Seul.
O lindo Wolfe esteve a pensar um pouco e retrucou titubeando:
— Vossa Excelência compreende
que... Eu! De uma hora para outra... Compreende Vossa Excelência que não tenho
prática... Com o tempo... Mais tarde...
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.