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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Mas, no seu cargo, nem sempre é possível, Doutor.

— Quá, moço! Tenho os auxiliá que faz minha vez.

Chaveco consertou melhor o busto e indagou convictamente:

— Cá dê o malandro?

— Que malandro, Doutor? — fez Bogoloff.

— Aquele que se embriagou-se.

— Não é malandro, Doutor. É amigo da casa. Um rapaz generoso...

— Como se chama?

— Lucrécio.

— De quê?

— Barba-de-Bode.

Riu-se gostosamente e disse com toda a sua simplicidade roceira:

— Bem posto... O cabra tem mesmo barba de bode!

D. Romana voltou com o embrulho; Chaveco agradeceu, levantou-se, despediu-se e disse para Bogoloff:

— Qué i cô nós, moço? Não paga nada. Intomove tá na porta.

O Dr. Bogoloff não podia deixar de aceitar o convite. Lançara-se nas altas camadas, esperava tirar dela os melhores proveitos e o momento era azado para estreitar os conhecimentos com aquela alta autoridade que tão obsequiosa se mostrava.

— Aceito, Doutor.

— Bamo

Juntos atravessaram as salas e, em breve, estavam na rua, onde um luxuoso automóvel esperava entre a fila de muitos outros. Sem esperar que o ajudante abrisse a portinhola, Chaveco a foi abrindo e convidou:

— Trepe moço!

Logo que o russo entrou e o chefe também, o motorista perguntou-lhe o destino do carro:

— Pra onde vosmecê qué i, moço?

O automóvel rodou e os passageiros, depois de bem se colocarem nos assentos puseram-se a conversar. O chefe de polícia perguntou:

— Como é seu nome, moço?

O russo disse-o e o chefe encheu-se de admiração infantil:

— Ué! gentes! Que nome! é de santo?

O doutor russo explicou-lhe que era ou podia ser, mas o doutor Chaveco em pequenas risadas, mantinha a sua dúvida.

Afogada no luar, a cidade oferecia um aspecto de paz serena e tranqüilidade satisfeita. Pelas ruas, não havia ninguém e aquelas casas inteiramente fechadas, mudas, tranqüilas, enchiam os dois passageiros de uma suave satisfação. Era como se esquecêssemos que, dentro elas, havia muita angústia, muito tormento, muita paixão e ódio. Verificando isso, tinha-se vontade de que todos nós, toda a humanidade, viesse a dormir assim, pelo séculos em fora...

O doutor Chaveco cochilava na almofada e Bogoloff lembrou-se da terrível polícia russa, contemplando aquele inofensivo chefe, aquele doce homem, simples, em que havia tanto de criança. Como era que naquelas mãos estavam tão terríveis poderes e como era que aquela bondade nativa não se fazia sentir em todas as rodas do mecanismo policial?

Recordou-se também do azedume com que as autoridades policiais o trataram quando aportou ao Rio. Já começavam a desembarcar os passageiros de terceira classe, quando um empregado de bordo veio chamá-lo. Prontamente seguiu-o e achou-se em presença de um homem agaloado, que lhe perguntou:

— Como se chama?

O intérprete que estava a seu lado traduziu e Bogoloff respondeu:

— Gregory Petrovich Bogoloff.

O homem da polícia marítima pediu então que lhe escrevesse o nome no papel. Esteve olhando as letras, e por fim, indagou:

— Qual é a sua profissão?

Com o auxílio do intérprete, Bogoloff pode responder:

— Sou professor.

O homem pareceu não se conformar com a resposta; olhou o imigrante muito e perguntou abruptamente:

— Você não é “cáften”?

Logo que Bogoloff percebeu o sentido, ficou indignado e disse:

— Por quê?



(continua...)

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