Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não seria uma baixeza de sua parte, interrogou a si mesmo, conservar aquela mulher no engano em que se achava a respeito dele?... Porventura seria possível deixar-se ficar ali nas circunstâncias precárias em que ele se via, sem com isso humilhar-se aos seus próprios olhos?... Poderia acaso sustentar aquelas relações no mesmo pé de superioridade em que as mantinha dantes?... E, uma vez que aceitasse qualquer concessão da parte daquela mulher, uma vez que não tivesse como qualquer de corresponder a peso de ouro com o amor que ela lhe dava, não ficaria ele obrigado a respeitá-la com a submissão de um obsequiado; não ficaria ele devendo em gratidão, em finezas e em considerações aquilo que não pudesse pagar a dinheiro?...
- Sim! deliberou Teobaldo, nem por forma alguma devo iludir me a este respeito! Não posso ficar!
E, afastando do pensamento toda a idéia de hesitação, procurado arrancar da memória a imagem daqueles ombros e daqueles braços nus, ergueu-se resolutamente, tirou um cartão o do bolso e ia a escrever algumas palavras, com a intenção de retirar-se depois, quando se abriu uma porta, que comunicava com o interior da casa, e Leonília reapareceu já em trajes domésticos: um belo penteador de renda, os cabelos a meio despenteados e os pés em chinelas turcas.
Teobaldo suspendeu o seu movimento, franzindo ligeiramente o sobrolho.
- Que é isso? perguntou ela. Ias escrever?..
- Sim, a tua presença poupa-me esse trabalho. Senta-te aqui comigo e ouve com atenção o que te vou dizer.
Leonília, com um gesto que a tornava mais engraçada, deixou-se cair ao lado dele no divã.
- Sabes? Eu não posso cear contigo e é natural que não volte à tua casa.
- Por que?
- Porque tenho sérios motivos que mo impedem. Mais tarde sem que seja necessária a minha intervenção, hás de saber de tudo. É só esperar mais alguns dias.
- Não preciso esperar! Já sei: é porque estás pobre...
Teobaldo fez-se vermelho, como que se aquela última palavra fosse uma bofetada. Ergueu-se, sem dizer palavra, tomou o chapéu e estendeu a mão à rapariga:
- Adeus.
Ela, em vez de apertar-lhe a mão, passou-lhe os braços em volta do pescoço e alongou os lábios suplicando um beijo em silencio.
E depois, em resposta a uma nova menção de Teobaldo:
- É inútil tentar sair, porque as portas estão fechadas... Dei ordem para que não as abrissem a ninguém.
O rapaz fez um gesto de contrariedade e disse, tornando-se sério:
- Creio que terás bastante espírito para não me colocares em uma posição ridícula...
- Ridículo serias tu se me abandonasses agora...
- Paciência. Dos males o menor!...
- Mas, nesse caso, ao menos ceia comigo. O fato de estares pobre não te desobriga dos teus deveres de cavalheiro. Serias o mais incivil dos homens se me obrigasse a ir sozinha para a mesa.
Ele respondeu largando o chapéu e o sobretudo, que tinha ido tomar.
- Ainda bem! disse Leonília. Passemos para a sala de jantar.
E acrescentou, puxando-o pelo braço:
- Entra por aqui mesmo.
Os dois atravessaram uma pequena antecâmara, depois uma grande alcova, que Teobaldo considerou de relance, e afinal, tendo ainda atravessado um quarto de toucador, acharam-se na sala de jantar.
- Estamos completamente a sós, observou a rapariga, mostrando a ceia já servida; dei ordem ao copeiro que se recolhesse, e disse à criada que podia dormir à vontade.
- Está bom...
- Temos tudo à mão. Não precisamos de ninguém.
E, assentando-se ao lado de Teobaldo:
- Sabes? A primeira pessoa de quem pedi notícias, ao chegar aqui, foste tu...
- Muito obrigado.
- Oh! não calculas o prazer que tive quando me disseram que estavas totalmente arruinado!
- É bondade tua!
- E, olha, se não fosse isso, eu talvez não tivesse te prendido hoje.
- Orgulho! Compreende-se.
- E é exato. Nós, mulheres, quando gostamos deveras de um homem, sentimos dessa espécie de orgulho.
- Caprichos do amor... Queres uma fatia de presunto?
-- Aceito. Vocês, homens, são os bichos mais pretensiosos que o céu cobre. Querem ter sobre as pobres das mulheres todas as superioridades!... Enquanto nós nos sentimos felizes em depender do homem que amamos, vocês, vaidosos, sentem-se humilhados em dar ternura em troca de ternura que lhe damos. Súcia de egoístas!
- Não, filha, isso depende também da qualidade da mulher.
- Que gentileza!
- Pois não! Há certas mulheres, cuja ternura não é lícito pagar só com ternura..
- Não. O amor só com o amor se paga! Passa a mostarda.
- Oh! mas é que há tanta espécie de amor...
- Protesto! O amor, o verdadeiro amor, e um só, insolúvel e eterno! e por ele tudo se explica e tudo se perdoa! É preciso não enxovalhar esse nome sagrado emprestando-o a outro qualquer sentimento; eu quando te falo em amor, não me refiro ao amor fingido... Toma um pouco de Borgonha.
- Sim, mas também há mulheres, das quais seria tolice esperar o tal amor genuíno de que falas..
- Ora, dize-me uma coisa, Teobaldo; quantas espécies de mulheres conheces tu?- Eu? Duas.
- Quais são elas?
- A mulher virtuosa e a mulher que não é virtuosa.
- Só?
- Só.
- Ora bem, dize-me ainda: que diabo entendes tu pela tal mulher virtuosa?- A mulher casta.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.