Por Aluísio Azevedo (1891)
— Para toda a parte, respondeu Alzira, onde possamos esquecer as dores que já sofremos, e fruir as delícias que ainda não gozamos! Para toda a parte, onde cada lágrima derramada pelos nossos olhos, seja resgatada por um beijo de nossos lábios...
E deu-lhe um beijo na fronte.
Ângelo soltou um gemido e retraiu-se.
— Que tens?... indagou ela com meiguice.
— É que teus beijos são frios como as gotas da noite! ... Parecem beijos de uma estátua gelada!...
— Sim! Enregelei na viagem... Ah! São tão frias as paragens que percorri!... Mas tu me aquecerás com os teus ardentes lábios de moço! tu me darás um pouco de calor do teu sangue!
Ângelo retraiu-se ainda.
— Não tenhas medo, prosseguiu ela; este frio é todo exterior, meu coração arde-me dentro do peito, como um vulcão sob a neve. Não fujas de mim! Vamos! Ergue-te! Principiemos a nossa existência feliz! Vem, que só poderemos estar juntos até ao raiar do dia! Não há tempo a perder!...
E a sua túnica mortuária transformou-se por encanto num rico vestido de castelã da época, e o seu porte readquiriu a primeira graça fascinadora.
Ângelo ergueu-se deslumbrado, e viu com surpresa que a sua pobre sotaina também se transformava nas belas roupas de um cavalheiro nobre, e que seu corpo readquiria destreza e força.
— Que é isto? exclamou ele.
— É uma das vantagens da nova existência que te ofereço. Agora já não és um miserável cura de aldeia, és um homem, és livre, és senhor do teu corpo e de tua alma! Correrás comigo o mundo inteiro! Ao meu lado conhecerás todos os gozos, todas as paixões, tudo enfim que na outra vida representa os prazeres que te são vedados!
Ângelo passou-lhe o braço na cintura.
— Sim! sim! disse. Eu irei contigo! Quero gozar! Quero viver!
E uma larga estrada maravilhosa abriu-se defronte deles, onde dois negros cavalos, esplendidamente ajaezados, impacientes os esperavam relinchando.
— Vamos! Vamos!
Ângelo e Alzira montaram e partiram a galope.
CAPÍTULO VII
O mundo dos mortos
O sonho continuou.
Ângelo, ao lado de sua fantástica companheira, deixou-se arrebatar na vertigem de um galope tão lesto, que lhe dava a sensação de um vôo contínuo e rápido.
A floresta fugia em torno deles como duas faixas de treva compacta, que se rasgava de vez em quando ao súbito bruxulear dos relâmpagos.
Depois sentiram-se dentro de uma estreita e profunda galeria toda de pedra, onde o tropel das patas dos cavalos ressoava como um frenético martelar de ferreiros infernais. E afinal acharam-se defronte de um estranho palácio erguido em abóbada, cujo átrio solenemente se abria em arcadas, iluminado por um sinistro luar fosforescente.
Os animais estacaram desalentados, soprando forte pela boca e pelas ventas.
— Apeemo-nos, disse Alzira, dando um salto em terra.
O companheiro imitou-a.
— Onde estamos?... quis ele saber.
— Verás. Caminha comigo.
E penetraram numa extensa galeria toda formada de ossos.
Ângelo olhava para os lados, considerando aquelas longas colunas feitas de caveiras e de tíbias, por entre as quais perpassavam fugitivas sombras silenciosas, que o perturbavam.
Às vezes queria parar para ver melhor, mas Alzira arrastava-o pela cintura, segredando-lhe que se não detivesse ali um só instante.
— Vamos! Vamos! dizia ela, impaciente.
É só deteve o passo ao chegar a um enorme salão, singularmente ornado de estátuas em esqueleto e iluminado por milhares de piras bruxuleantes. Uma vasta galeria perdia-se ao fundo, multiplicando as colunas a perder de vista.
Ao centro um grande órgão, em que velho e carcomido esqueleto, todo vergado sobre o teclado, tocava, com os seus movimentos demoradíssimos, uma arrastada harmonia funerária.
Ao lado do órgão outros esqueletos dançavam estranhamente, requebrando-se por entre sombras e fantasmas vaporosos.
Sobre cochins de veludo negro, enfeitados de lágrimas de prata, damas e cavalheiros, que pareciam ter saído naquele instante das sepulturas, bebiam e conversavam meio abraçados, trocando sorrisos e beijos.
Por toda a parte viam-se, passeando aos pares, espectros de homens e de mulheres; uns com os ossos à mostra, outros envolvidos em longas túnicas sombrias. Aqui declamavam versos de amor, ali carpiam saudade eternas, e todos surdamente e lentamente se agitavam, se confundiam e se baralhavam.
— Companheiros! disse um espectro no meio de um grande grupo, empunhando a sua taça, de onde saía um tênue vapor fosforescente. É preciso aproveitarmos bem as horas de que dispomos! A noite vai adiantada!... A aurora não tarda aí... Bebamos e folguemos!
— Bebamos e folguemos! responderam os outros, erguendo cada um a sua lívida taça.
E ouviu-se um coro entoando surdamente uma canção de prazer. Alzira aproximou-se do grupo, acompanhada por Ângelo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.