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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— E, se encontrar oposição em seus parentes, o que fará?

— Não sei! só sei que a amo loucamente!

— Isso não é resposta — Quero saber se o senhor tem a necessária coragem para vencer todos os escrúpulos e freqüentar os bailes de meu pai.

— E ele consentirá?

— Se eu quiser, há de consentir.

— Pois estou por tudo!

— Venha então quinta­feira. Faço vinte e três anos. O convite lhe chegará às mãos...

— E fico perdoado?...

— Não sei!

— E Ambrosina afastou­se de Gabriel, mas ficou perto do reposteiro, que apenas arredou com uma das mãos.

— Ele correu até lá e estendeu­lhe os braços.

— Adeus... disse.

— Adeus, respondeu a dissimulada.

— Nem uma palavra de esperança?...

— Eu te amo, segredou ela.

E fugiu para dentro.

Gabriel quedou­se por algum tempo estático, a olhar abstratamente para o reposteiro que se fechara sobre a bela moça. Depois, rebentou­lhe no coração uma grande alegria, e ele saiu a chorar de contentamento.

— Ama­me! exclamava, desgalgando a escada. Ama­me! Como sou feliz!

XVII

LEONARDO

Ultimou­se o negócio do comendador com Gabriel, e este recebeu o prometido convite para a tal quinta­feira. Haveria baile.

— É uma loucura o que vais fazer! observou­lhe Gaspar, quando o moço enfiava já a casaca. Convenho que Ambrosina seja uma interessante rapariga, convenho que seja bela, chego mesmo a concordar em que ela tenha espírito, e que a ames loucamente; digo e repito, porém, que uma menina, criada e educada pelo comendador Moscoso, não pode ser uma menina bem educada. O casamento, meu filho, depende principalmente da educação da mulher. Tu és o que se chama um bom partido; e ela, pelo que vejo, uma grande espertalhona. Não dou um mês a vocês dois para se amarrarem, e outro para te arrependeres!

— Mas, que diabo hei de fazer? Prometi ir ao baile!... Vá que cometesse com isso uma asneira, mas não é muito razoável querer remediar uma asneira com uma incorreção!... A verdade é que prometi ir. Ela, coitadinha! para obrigar o pai a convidar­me, que passos não teria dado...

— Bem se vê que tens vinte e um anos! Pois acredita nisso? Não percebes que, de todos ali, o mais interessado na tua ida é justamente o comendador, esse homem do dinheiro e da vaidade? Não percebes, Gabriel, que tu representas mil contos de réis, e que aquele velho especulador não te deixará passar impunemente por entre as unhas?!

— Não! isso não, coitado! porque ele nem sequer me conhecia!.

— Mas conhece­te agora por intermédio da filha!

— Que juízo fazes dela, então?

— O juízo que faço de qualquer menina inteligente e mal­educada.

Nisto entrou o servente com uma carta para Gabriel.

— Alguma novidade?... perguntou Gaspar ao enteado.

— É uma comunicação misteriosa...

— Cedo principiam!

— Não traz assinatura... Lê.

E passou a carta ao outro.

Era isto:

"Meu amigo. Uma pessoa, que o estima deveras, aconselha­te todas as precauções: O senhor tem um rival formidável, que irá hoje à casa do comendador e não deseja vê­lo ao lado de Ambrosina. Não vá ao baile, se quiser evitar escândalo".

— Isso foi escrito por ela!... disse o padrasto com repugnância.

— Por ela?!

— Sim; para te obrigar a ir... Quer estimular­te o orgulho. Eu, no teu caso, servia­me dessa carta como pretexto para ficar em casa...

— Mas, se a amo!...

— É o que supões; porém a verdade é que mal a conheces.

Juro­te que ...

— ... Que perdeste a cabeça defronte de uns olhos grandes, de uma boca engraçada e de uns cabelos bonitos; que te deixaste enfeitiçar pela garridice de uma rapariga viva que anda à procura de noivo rico, e supões afinal que tudo isso tem alguma importância!... Mas eu te afianço que perderás a cabeça do mesmo modo defronte de outros quaisquer olhos não menos feios, e que em breve, se te afastares de Ambrosina, te esquecerás dela para sempre.

— Duvido!

— Proponho­te uma cousa: metamo­nos num carro fechado, e vamos, antes de te apresentares no baile, espiar cá de fora os passos de tua apaixonada. Talvez colhamos disso alguns esclarecimentos.

— Está dito!

E às onze horas achavam­se os dois em caminho para a casa do comendador.

O sarau principiara às dez. Havia grande concorrência e muito luxo. Como fazia calor, dançavam somente nos sabes térreos do palacete, ao lado do jardim, com as janelas abertas, o que auxiliava à curiosidade dos dois espiões.

(continua...)

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