Por Bernardo Guimarães (1883)
— Desista de semelhante empresa, senhor padre, redarguio Moraes com azedume e máo modo; ella é impropria, para não dizer indignade seu estado. É a primeira vez que vejo ir-se aos convenios arrancar os frades de suas tranquillas cellas. distrahil-os de suas sanctas occupaçõcs para nos virem á casa disputar-nos nossa legitima propriedade.
A estas desrespeitosas e insensatas palavras de Moraes, Frei João não perdeo a calma nem a paciencia ; mas perdeo toda a esperança de poder chamar aquelles dois homens ao caminho da prudencia, da razão e da justiça. Convenceose por fim que baldados serião todos os esforcos que empregasse para conduzir o negocio, que alli o trazia, a uma solução menos escandalosa e menos fatal á tranquillidade e honra daquella familia. Olhou para Conrado e com um gesto deo-lhe a entender que já não havia outro recurso sinão lançar mão da fatal e extrema arma de que dispunhão. Conrado o comprehendeo, e abatando a vóz, para que não echoasse fóra daquelle recinto, mas com um accento bem distincto e repassado de dolorosa e profunda emoção :
Deus e todos que aqui se achão, disse, — são testemunhas dos esforços, que temos empregado, eu e meu amigo Frei João, no sincero e louvavel empenho de evitar um grande escandalo conservado inviolavel um segredo. cuja revelação vae trazer a vergonha, a desconfiança e a discordia ao seio de uma familia, cuja harmonia e felicidade eu sou o primeir) a desejar. Mas desgraçadamente forção me a ar esse extremo e doloroso passo; resignem-se portanto a ouvir a verdade toda inteira. Senhor major, restitua-me sua neta ; senhor Moraes, restitua-me a filha de sua mulher; Senhora Dona Adelaide, faça com que me seja entregue a nossa filha!...
CAPITULO XVII
Exalta os humildes
Passarão-se alguns momentos de pasmo e de silencio, durante os quaes o major e seu genro ficarão como fulminados, e Adelaide entregue á mais cruciante angustia. Moraes todavia, posto que aturdido por aquelle cruel e inopinado golpe, não quiz ainda acreditar, e tentou reagir contra a terrivel verdade, que o esmagava.
— Nossa filha! — bradou elle espumando de raiva e avançando para Conrado de punho alçado. — Mentira ! infamia ! vil impostura!...
— Que pretende, senhor? disse Frei João avançando tambem, estendendo o braço e com um gesto firme e imponente contendo a colera insensata de Moraes. —- Espere ainda; não se exaspere tanto ; já que assim o quer e não dá credito a nossas palavras, tendo—nos em conta de embusteiros e calumniadores, a verdade vae-lhe ser revelada em toda a sua cruel realidade pela bocca mais competente.
— Mentira ! embuste' para apadrinhar um roubo querem trazer a deshonra ao seio de uma familia honesta ! — bradou ainda Moraes.
— Senhor Moraes, — disse Conrado, — é Vossa senhoria quem força um pae a lançar mão deste meio extremo, mas legitimo, para arrancar a filha das garras do captiveiro e da deshonra. Do captiveiro, é cousa manifesta; da deshonra, o senhor Moraes melhor que ninguem sabe o motivo por que assim me exprimo.
— Não insulte por esse modo a toda uma familia honrada.
— Não insulto a ninguem; digo simplesmente a verdade. Minha senhora, — continuou Conrado voltando-se para Adelaide com accento repassado de amargura, — espero que me não ficará odiando por tão estranho procedimento, a que as circumstancias me obrigão. Perdoe-me; a senhora tambem é mãe, e não quereria por preço nenhum ver a sua filha reduzida á escravidão, exposta continuamente ás seducções... Ah ! minha senhora, é escusado dizer-lhe mais... não posso sacrificar a liberdade e a honra da filha á reputação da mãe. É preciso que a senhora declare quem é a mãe de Rozaura.
Adelaide não respondeo directamente a esta pergunta, mas cahindo de joelhos aos pés de seu marido, contorcendo convulsivamente as mãos, debulhada em lagrimas, c affogada cm soluços, mal podia pronunciar :
Perdão perdão!...
— Levanta-te dahi, mulher indigna! —- gritou Moraes repellindo-a brutalmente. —
levanta-te, e nunca mais me appareças.
— Perdão! perdão ! continuou ella abracando as pernas do marido. — Em nome de nossos filhinhos, perdão, meu marido! perdão, meu pae' perdão, meu Deos!...
Perdoar-te eu disse Moraes. — ah si eu soubesse ha mais tempo que não passavas
de uma...
— Basta ! — bradou Conrado atalhando a palavra ignominiosa, que irrompia dos labios de Moraes. — Insultar a uma senhora em tão afllictivas circumstancias não é só uma crueldade, é uma indignidade, uma covardia; quatorze annos de uma vida pura e de um procedimento exemplar sho mui sufficientes para fazer esquecer uma primeira e unica fraqueza, devido a imprudencia e ardor da mocidade. Embora ! si va Sa não perdoa, Deus perdoará. E Va sa , continuou Conrado voltando-se respeitosamente para o major, que mal voltára a si do effeito esmagador, com que o fulminára tão triste revelação, —- tambem não perdoa á sua filha?
— Eu ! eu nunca ! — respondeo elle com olhar desvairado e vóz lugubre e cavernosa.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.