Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Tanto que anoiteceu, o capitão mor deu ordem para que Valentim, Alexandre e dez matutos experimentados se trepassem em árvores próximas das quais pudessem observar o rumo que os malfeitores tomassem depois do escurecer. Estas sentinelas perdidas deviam dar aviso à tropa que estava no engenho, para que ela, guiada por Timóteo, corresse a tomar as entradas, e pudesse prender os malfeitores em sua volta ao couto. Foi o que sucedeu. Quando Valentim viu os ladrões tomarem, à boca da noite, pelo caminho da engenhoca, desceu-se da pitombeira onde se trepara, montou no cavalo que tinha preso de prevenção dentro de uma moita, e correu ao engenho. A tropa moveu-se incontinente, sob o imediato comando do capitão mor.

Dividida a metade dela em tantos piquetes quantas eram as picadas secretas, tomou todas estas, e achou-se em condições de interceptar a passagem daqueles para o ponto central. A outra metade, colocada a um lado da mata a distancia conveniente, pôde acudir aqueles pontos logo que o Valentim que depois do aviso havia voltado ao seu posto, foi informá-los da volta dos malfeitores. Assim, acharamse estes, quando voltaram da engenhoca, entre duas colunas inimigas, às quais forçado foi entregarem-se, quase todos com a morte. Ao Joaquim se poupou a vida, a fim de se cumprir a determinação do governador, não só a respeito dele, mas também do Cabeleira e do Teodósio para fins de alta justiça.

Quando o Cabeleira se afastou com Luísa da beira do rio para o alagadiço, o Valentim estava dando o seu segundo aviso, e eles puderam, por isso, escapar à sua inspeção.

Tinha ele, porém, ouvido antes, de cima da pitombeira, o diálogo do Cabeleira com o Teodósio, e sido causa do ruído que espantara o cavalo deste último. Tinha visto aquele encaminhar-se à engenhoca, o que o fizera acreditar que entre os malfeitores, que tinham de tornar, e efetivamente tornaram à mata, se achava o famigerado bandido, alma do couto, terror dos povos. Não lhe parecendo, por isso, necessário vigiar o terrível salteador, que ele considerava seguro com os outros na armadilha que lhes havia armado, consagrou-se todo a evitar que lhe escapasse o Teodósio. E como queria ter grande parte na glória que resultasse da extinção dos célebres assassinos, voltou sobre seus passos à estrada, e encaminhou-se ao povoado.

Valentim era bravo como uma onça, e tinha deste animal a agilidade e a destreza no mais alto grau. Confiava, não só nestes dotes naturais, mas também na sua espada de ponta direita que muitas vitórias já lhe havia proporcionado. Ele jogava com insigne habilidade esta arma.

Pouco adiante ouviu vozes. Apressou os passos, e encontrou-se face a face com o Teodósio, que, nada sabendo do que havia, demandava o couto.

Com ímpeto de fera botou-se a ele, não para vencê-lo mas para matá-lo.

— O seu gracejo é pesado, camarada — disse o Teodósio, recuando ante a brutal investida.

— Valentim não graceja. Rende-te, cabra Teodósio; ou então reza o ato de contrição, que esta é a tua derradeira.

— Se eu trouxesse a minha espada, não lhe enjeitada o bote. E se quer saber para quanto presta o cabra Teodósio, embainhe o seu ferro, e vamos decidir da sorte pela faca.

— Não estou para tuas parolas, cabra safado. Se não te entregas já nas mãos do Valentim, que nunca escolheu armas para provar que é homem, tiro-te o couro antes do amanhecer.

Teodósio, vendo aquela decisão ante a qual poucos ânimos, talvez unicamente o do Cabeleira, deixariam de curvar-se; e conquanto nos recursos do seu gênio astucioso que nunca o havia desamparado ainda nos maiores apertos, respondeu com voz melíflua:

— Não me mate, meu amo; o Teodósio rende-se.

No momento em que assim falava, o Valentim descarregou-lhe tamanha pranchada na cara, que ele caiu redondamente no chão.

Quando voltou a si, tinha nos pulsos enrodilhada uma corda de couro cru, em cuja ponta segurava o cabra.

— Levanta-te, que quero olhar para a tua cara — disse-lhe Valentim fustigando o prisioneiro com a ponta da espada. — Onde está a tua fama, cabra Teodósio ?

Este não respondeu.

Súbita tristeza invadira-lhe o espírito ordinariamente expansivo como o de uma criança.

Tinha ouvido tiros na mata, e conhecido que a situação era mortal.

CAPÍTULO XII

Ao amanhecer a região litoral da província desde Alagoas até Paraíba estava separada do sertão por cordão sanitário formado pelas milícias volantes dos diferentes distritos rurais.

Todas as matas compreendidas na zona que fica entre a costa e o sertão foram batidas ao mesmo tempo.

Os piquetes que penetram nas de Serinhaém, Água Preta, Muribeca, Merueira, S. Lourenço, Catucá, Iguaraçu, Goiana, Pau d'Alho, Limoeiro, recolheram-se mais tarde às respectivas sedes, depois de terem realizado importantes capturas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4041424344...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →