Por Bernardo Guimarães (1872)
Eram já passados mais de dois anos, quando Jurema sem mais cerimônia entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela mão a pequena Jupira, e já com outro caboclinho às costas acocorado em uma pequena maca de buriti, que trazia presa à testa, como é costume entre as índias. Apareceu a seu marido sorrindo-se tranqüila e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na véspera. José Luís ficou atônito com aquela inesperada visita; maior porém foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu graças ao céu, que lhe restituiu a filha, a qual ele tratou logo de pôr em bom recato e segurança, despedindo cortesmente a mãe, que com isso não se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as aparências já tinha novo esposo no bando dos seus.
Receoso José Luís, de que sua filha não fosse de novo levada para o mato por sua mãe, guardou-a com toda a cautela, confiando-a aos cuidados de uma velha parenta que era a sua caseira, e não respirou tranqüilo enquanto Jurema com todo o seu bando não desapareceram das imediações de Campo Belo.
A menina crescia linda, engraçada, e travessa como uma ariranha. Tinha muita vivacidade e penetração, mas os instintos selváticos prevaleciam nela, e foi com muita dificuldade, que seu pai no fim de sete anos conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civilização, andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma coisa. Muitas vezes a iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas árvores, ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde em risco de ser devorada por algum jaú ou sucuri.
Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas qualidades físicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoação.
Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. Às vezes também penetrava no seminário, aí fazia o regalo e as delícias dos padres e dos estudantes.
Quando, porém, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva, não queria mais sair do meio deles; já lhes conhecia bem a língua, da qual já balbuciava algumas palavras quando voltara do mato. Por isso muitas vezes servia de intérprete entre os índios e os padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente José Luís – e com razão – se afligia muito com isso, e não gostava nada de ver sua filha tão afeiçoada aos seus parentes do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, mas era debalde; o pendor que a menina tinha para os seus era irresistível.
Jupira já tinha nove para dez anos, quando sua mãe, depois de vaguear largos anos pelos sertões de Goiás, Pará e Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo com a horda, a que pertencia. Jupira!... exclamou a índia, apenas pôs os olhos em sua filha. Esta também imediatamente reconheceu sua mãe, saltou-lhe ao colo, e nunca mais quis deixá-la.
José Luís ficou cheio de gosto e inquietação com o reaparecimento da mãe de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados e precauções. Jupira sem que ela o soubesse, não andava sem uma sentinela à vista. Era um primo seu, um sobrinho de José Luís, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais velho do que ela, rapazinho vivo e esperto como um diabrete. Não tendo podido parar no seminário em razão de seu gênio trêfego, indócil e insubordinado, freqüentava como externo a escola de primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante o dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da velha caseira de José Luís.
Todavia apesar de todas essas precauções, uma bela manhã Jupira não amanheceu em casa. Tinha arranjado modo de trepar pela parede, e como a casa era de telha-vã, isto é, sem forro no teto, descobriu um pedaço de telhado, saltou fora, e voou para as selvas em companhia de sua mãe.
Capítulo III
Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao coração de José Luís do que a primeira. Já amava extremosamente sua filha, e tinha a mais terna solicitude por aquela interessante menina, cuja criação lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um só momento vira esvaecer-se. Era à semelhança de uma flor peregrina e rara, em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia porém, quando pela manhã vai visitar o tenro botão, que de dia a dia anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho, murcha e perdida para sempre.
José Luís fez altas diligências para reaver sua filha, mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para reivindicá-la armar uma bandeira e levar a guerra a todas as tribos selvagens, como outrora Menelau levou toda a Grécia armada aos muros de Tróia para reconquistar a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. Mas não lhe era isso possível, e contentava-se em dirigir súplicas ao céu, e fazer promessas a Nossa Senhora Mãe dos Homens para que lhe restituísse a filha.
Nas selvas Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das campinas, mas esquiva e soberba como a ema, rainha dos chapadões. Suas graças fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a e adorando-a como a um manitô caído do céu; mas a nenhum deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas. Baguari era chefe de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira, encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.