Por Bernardo Guimarães (1875)
Entretanto, esta pequena altercação começava a atrair a atenção geral, e numerosos grupos movidos de curiosidade se apinhavam em torno dos contendores. A frase fatal - esta senhora é uma escrava! — proferida em voz alta por Martinho, transmitida de grupo em grupo, de ouvido em ouvido, já havia circulado com incrível celeridade por todas as salas e recantos do espaçoso edifício. Um sussurro geral se propagara por todo ele, e damas e cavalheiros, e tudo o que ali se achava, inclusive músicos, porteiros e fâmulos, atropelando-se uns aos outros, arrojavam-se afanosos para a sala, onde se dava o singular incidente que estamos relatando.
A sala estava literalmente apinhada de gente, que afiava o ouvido e alongava o pescoço o mais que podia para ver e ouvir o que se passava.
Foi no meio desta multidão silenciosa, imóvel, estupefata e anelante, que Martinho, sacando tranqüilamente da algibeira o anúncio, que nós já conhecemos, desdobrou-o ante seus olhos, e em voz bem alta e sonora o leu de principio a fim.
— Bem se vê, — continuou ele concluída a leitura, — que os sinais combinam perfeitamente, e só um cego não verá naquela senhora a escrava do anúncio. Mas para tirar toda a dúvida, só resta examinar se ela tem o tal sinal de queimadura acima do seio, e é coisa que desde já se pode averiguar com licença da senhora.
Dizendo isto, Martinho com impudente desembaraço se encaminhava para Isaura.
— Alto lá, vil esbirro!... bradou Álvaro com força, e agarrando o Martinho pelo braço, o arrojou para longe de Isaura, e o teria lançado em terra, se ele não fosse esbarrar de encontro ao grupo, que cada vez mais se apertava em torno deles. — Alto lá! nem tanto desembaraço! escrava, ou não, tu não lhe deitarás as mãos imundas.
Aniquilada de dor e de vergonha, Isaura erguendo enfim o rosto, que até ali tivera sempre debruçado e escondido sobre o seio de seu pai, voltou-se para os circunstantes, e ajuntando as mãos convulsas no gesto da mais violenta agitação:
— Não é preciso que me toquem, — exclamou com voz angustiada. — Meus senhores, e senhoras, perdão! cometi uma infâmia, uma indignidade imperdoável!... mas Deus me é testemunha, que uma cruel fatalidade a isso me levou. Senhores, o que esse homem diz, é verdade. Eu sou... uma escrava!...
O rosto da cativa cobriu-se de lividez cadavérica, como lírio ceifado pendeulhe a fronte sobre o seio, e o donoso corpo desabou como bela estátua de mármore, que o furacão arranca do pedestal, e teria rojado pela terra, se os braços de Álvaro e de Miguel não tivessem prontamente acudido para amparar-lhe a queda.
Uma escrava!... estas palavras, soluçadas no peito de Isaura como o estertor do arranco extremo, murmuradas de boca em boca pela multidão estupefata, ecoaram largo tempo pelos vastos salões, como o rugir sinistro das lufadas da noite pela grenha de fúnebre arvoredo.
Este estranho incidente produziu no sarau o mesmo efeito que faria em um acampamento a explosão de um paiol de pólvora; nos primeiros momentos, susto, pasmo e uma espécie de estertor de angústia; depois, agitação, alarma, movimento e alarido.
Álvaro e Miguel conduziram Isaura desfalecida ao boudoir das damas, e aí, ajudados por algumas senhoras compassivas, prestaram-lhe os socorros que o caso reclamava, e não a abandonaram enquanto não recobrou completamente os sentidos. Martinho, inquieto e ressabiado, os seguia e espiava o mais de perto que lhe era possível, com receio de que lhe roubassem a presa.
É impossível descrever a celeuma que se levantou, a agitação que sublevou todos os espíritos, e as diversas e opostas impressões que produziu nos ânimos aquela inesperada revelação. Com que cara ficariam tantas belezas de primeira ordem, tantas damas das mais distintas jerarquias sociais, ao saberem que aquela que as havia suplantado a todas, em formosura, donaire, talentos e graças do espírito, não era mais que uma escrava! eu mesmo não sei dizer; os leitores que façam idéia.
Entretanto em muitas delas o cruel desapontamento por que acabavam de passar não deixava de ser mesclado de um certo contentamento íntimo, mormente naquelas que se sentiam enfadadas pelas deferências e homenagens que certos cavalheiros, tomados de entusiasmo, haviam francamente rendido à gentil desconhecida. Estavam humilhadas, mas também vingadas. Quanto ás que tinham esperanças ou pretensões ao amor de Álvaro, — e não eram poucas, — essas exultaram de júbilo ao saberem do caso, e o nobre mancebo tornou-se o alvo de mil desapiedados apodos e pilhérias.
— O que me diz do escravo da escrava? — diziam elas – com que cara não
ficaria o pobre homem!...
— Com a mesma. Decerto vai forrá-la e casar-se com ela. Aquilo é um maluco capaz de todas as asneiras.
— E que mau! Terá ao mesmo tempo mulher e talvez uma boa cozinheira.
Triste consolação! o estigma do cativeiro não podia apagar da bela fronte de Isaura, antes mais realçava o cunho de superioridade que o sopro divino nela havia gravado em caracteres indeléveis.
Entre os mancebos a impressão era bem diferente. Poucos, bem poucos, deixavam de tomar vivo interesse e compaixão pela sorte da infeliz e formosa escrava. Por todos os cantos falava-se e discutia-se com calor a respeito do caso. Alguns, a despeito da evidência dos indícios e da confissão de Isaura, ainda duvidavam da verdade que tinham diante dos olhos.
— Não; aquela mulher não pode ser uma escrava, — diziam eles, — aqui há algum mistério, que algum dia se desvendará.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.