Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Conversai com os nossos velhos, e ouvi-los-eis falar das suas agradáveis noites e das afamadas ceias do Passeio Público com mais entusiasmo do que vós outros falais do vosso Cassino, do vosso Clube Fluminense, dos vossos jantares do Jardim Botânico, das vossas festas de hoje, enfim, tão descoradas e tão fatigantes à força de serem tão cerimoniais e tão calculadas.
E, notai bem, quinze dias, ou antes, quinze noites pelo menos em cada mês, havia no Passeio Público festa do povo, alegria do povo, reunião de famílias, cantigas de moças e de mancebos, conversações animadas de velhos e velhas, versos lidos ou improvisados por poetas ou simples cultivadores do Parnaso, amores puros nascidos ao som de suaves cantos, confiança e contentamento de todos, ruído, aplausos, risadas, movimento e nunca uma desordem, e jamais um desaguisado, e ainda menos um arrependimento e remorsos. O véu da noite ali não favorecia o vício, somente facilitava os santos gozos da virtude.
E, entretanto, não apareciam lá para manter a ordem nem subdelegados, nem inspetores de quarteirão, nem permanentes, nem pedestres. Até aí não tinha ainda florescido na cidade do Rio de Janeiro o célebre Vidigal, que foi o tutu do seu tempo. Passava-se perfeitamente sem as providências da polícia. Não havia desordeiros, porque subsistiam os antigos costumes do povo, e, apesar do governo absoluto, o povo tinha moralidade.
A satisfação naquelas noites era geral, e as noites faziam talvez esquecer os dias. Os gozos puros eram de todos e para todos; creio mesmo que as freiras da Ajuda passariam horas inteiras às grades das janelas do seu convento, estendendo os olhos ávidos para apreciar com eles, e de longe embora, os inocentes prazeres da terra que eram negados a elas, pobrezinhas, a pretexto de que poderiam arredar os seus pensamentos do Céu.
Ainda bem que nesse tempo os frades do Carmo não moravam ainda a poucos passos do Passeio Público, como depois tiveram de ir morar. Aliás, duvido que resistissem com paciência àquele martírio de Tântalo de que puderam triunfar as freiras da Ajuda. Porque, enfim, os frades não são freiras, e às vezes têm suas fraquezas e cedem à tentação do Diabo, que em regra geral é mais feliz, tentando os homens do que as mulheres.
Foi uma verdadeira pena que esse contentamento do povo da cidade do Rio de Janeiro não se fizesse sentir sempre o mesmo, inalterável, até o fim do Governo Luís de Vasconcelos. Infelizmente, porém, a conjuração de Tiradentes em Minas Gerais, denunciada em março de 1789 ao visconde de Barbacena, veio dar motivo a toldarem-se e enegrecerem-se os últimos tempos do vice-reinado daquele notável administrador do Brasil.
Luís de Vasconcelos mostrou na perseguição dos conjurados a mesma energia e fervoroso empenho de que dera provas em todos os outros atos de sua administração. Multiplicou os segredos, não abriu um só instante o coração à piedade, turvou o seu espírito com a suspeita, e procurando todos os vestígios e todas as possíveis ramificações da conspiração de Minas, encheu a cidade do Rio de Janeiro de receios aterradores.
A mão pesada do absolutismo ergueu-se terrível e vingativa. Tremeram a um tempo inocentes e culpados. O povo não se lembrou mais de folgar e de rir, e as flores do Passeio Público logo começaram a murchar.
E ainda mais que o sucessor de Luís de Vasconcelos e Sousa mostrou sempre ser mais um vice-rei de espinhos do que um vice-rei de flores.
D. José Luís de Castro, conde de Resende, era um homem desconfiado, melancólico, violento e caprichoso, e, portanto muito naturalmente, deu pancadas de cego com a sua bengala de vice-rei.
Estreou no seu vice-reinado recebendo o sinistro festejo de uma iluminação de mau agouro; porque, apenas alguns dias depois de ter tomado posse do Governo do Brasil, ardeu toda a casa em que a câmara municipal celebrava as suas sessões, e que era na mesma praça do palácio em frente a este, no correr das casas dos Teles, ficando exatamente na esquina da atual rua do Mercado. O fogo que consumiu a casa devorou também o arquivo municipal, escapando somente os livros e papéis que por casualidade se achavam em poder do Escrivão da Câmara e do Juiz de Fora.
O povo, que já andava triste, viu naquele incêndio um presságio funesto, e o conde de Resende pareceu tomar a peito verificar o presságio.
O novo vice-rei foi uma verdadeira praga que caiu sobre a
cidade do Rio de Janeiro. Além dos males que fez, destruiu ou amesquinhou os
benefícios que achou feitos. Dissolveu a academia científica criada sob os
auspícios do marquês de Lavradio e perseguiu duramente os seus membros.
Desprezou completamente o Passeio Público, fundado por D. Luís de Vasconcelos,
condenou-o a um abandono que o foi arruinando pouco a pouco, e julgou-se,
talvez por estes e muitos outros fatos semelhantes, um administrador modelo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.