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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— A unca potencia eleitoral deve ser o merecimento do candidato ; uma eleição não é um favor que se ande mendigando : hei de ser eleito sem empregar esses meios que reprovo.

— Só depois de vèr esse milagre acreditarei n'elle. Desconfio muito que não serás nem o immediato em votos. Rapaz, tu pensas que a eleição é uma bella realidade politica, e ella não passa de uma comedia ou fantasmagoria constitucional. Mas vamos á segunda esperança : a tal commissão...

Soube, antes de partir para a minha provincia, que o governo ia nomear um commissario encarregado de examinar trabalhos importantes, que se referem á especialidade que foi objecto dos meus principaes estudos : requeri ser escolhido para essa commissão, documentando o meu requerimento com todos os meus attestados acadêmicos, declarando-me prompto para exhibir provas da minha capacidade em um exame publico, e, visto que sou ainda pouco conhecido, apontando diversos cavalheiros considerados d'esta capital que podem affiançar a minha probidade. Ora, a commissão é difficil e espinhosa, não creio que muitos a desejem, e portanto espero ser escolhido para ella.

— E quem é o teu patrono n'esta preten- ção ? _ O meu patrono?...

— Sim ; quem se empenha a teu favor ?...

— Meu padrinho é maniaco pelos empenhos!... eu não pedi, nem peço a pessoa alguma que se interesse por mim : offereci-me a sujeitar-me a um exame publico, lembrei homens conceituados que podem responder pela minha probidade, e é o que basta.

— Fallaste ao ministro respectivo ?...

— Procurei-o, e respondêrão-me que elle estava muito occupado, o que é bem natural, porque um ministro tem a seu cargo uma tarefa onerosissima ; deixei pois o meu requerimento documentado na secretaria, e espero socegadamente o resultado.

— Innocencio ! disse Geraldo; uma de duas : ou tu te resolveste a passar a tarde divertindo-te á minha custa, ou és o maior tolo que eu tenho conhecido no mundo. — Porque, meu padrinho?...

— Pois tu já viste nomeações sem patronos e sem empenhos?...

— Oh senhor ! exclamou Innocencio, não fallo agora de mim, que pouco valho: quando porém se apresenta pretendendo um emprego um homem illustrado, honesto e capaz de preenchel-o com proveito do paiz...

— Em regra não arranja nada, é posto de lado, e morre pagão, se não tem padrinho.

— Que blasphemia, meu Deos!...

— Innocencio! conheces o direito constitucional do teu paiz ?...

— Um pouco.

— Quantos são os poderes do Imperio ?...

— Ora, meu padrinho !

— Responde.

— São quatro.

— São cinco.

— Eu respondo com o direito constitucional.

— E eu com o direito consuctudinario. O patronato é o quinto poder do Imperio : ainda não houve ministro que o confessasse em alta voz ; mas também nenhum houve ainda que deixasse de reconhecel-o e dobrar-se a elle.

— Então o Brazil...

— O Brazil está no caso das outras nações : mais miseria, menos miséria, mais ou menos desmoralisação, todas ellas andão assim.

— Portanto...

— Aposto que ficarás sem a commissão.

— Veremos.

— Vamos á esperança do casamento.

— Meu padrinho, não vio aquella familia que chegou hoje comigo em um carro do trem da estrada de ferro?...

__ Ah! trata-se da formosa D. Christina, filha do meu amigo Fagundes... uma bella moça de apparencias sentimentaes, mas fria como uma pedra de gelo, e positiva como um bilhete do banco.

— Meu padrinho ! eu a amo...

— E ella ?

— Corresponde ao meu amor.

— E os pais?

— Não podem deixar de sabel-o.

— Entendo : o nosso amigo, em cuja casa estiveste, deu-lhes noticias tuas e de tua familia, e elles ficarão sabendo que tens uma fortunasinha de cincoenta a. sessenta contos de reis.

— E que vem isso ao caso ?

— Vem muito : vais por ahi melhor do que pelas esperanças de deputação e de emprego.

— Creio que não se refere ao meu dinheiro...

— Refiro-me ; é mesmo justo que um pai deseje para sua filha um marido que tenha com que tratal-a convenientemente : é verdade que o meu amigo Fagundes não é pobre : mas nem por isso calcula menos com um genro que seja rico. Anima-te pois : a tua terceira esperança realisar-se-ha, comtanto que....

— Acabe !

— Ora! comtanto que ainda a tempo não appareça algum outro pretendente que, mercantilmente fallando, represente uma somma mais avultada do que tu podes representar.

— Isto é de mais !

— Não é de mais nem de menos, é exacto. Entretanto approvo a tua idéa de casamento, e amanhã á noite iremos tomar chá á chacara do Fagundes; quero apresentar-te como meu afilhado.

— Aceito, meu padrinho.

— E não tens mais que confiar-me ?

— Nada mais.

(continua...)

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