Por José de Alencar (1872)
Voltou-se a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa, porque adivinhava o autor da travessura, que não era outra senão a ardilosa da Berta, em quem ela achava uma graça imensa, Não fazia a menina um trejeito, nem dizia uma facécia, que a viúva não se desfizesse em gargalhadas. Era a efusão de sua ternura pela pequena. O coração de nhá Tudinha só tinha para exprimir o amor dois vocábulos, o riso, ou então o choro nos dias de tristeza e luto.
- Ai, menina!... Quiá!... quiá!... quiá!... Já se viu, que ladroninha?
- Uh! pumbu!... dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de biscoito; e acrescentou voltando-se para a viúva. Quer ver como voa?
Começou então a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio das cachinadas de nhá Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou o cós da saia.
Cansada Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo riso da viúva, levantou-se esta para o almoço, que já estava posto à mesa, e frio de esperar.
- Que mãezinha má! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos e não me guardou um só!
- Pois então! Não me deixaram sozinha? Cuidei que não voltavam mais hoje. E o almoço esfriando!
- Bem bom! Não queima a gente!
- E o outro?... perguntou a rir a viúva. Por onde anda?
- Quem sabe se perdeu-se?... Coitadinho do Miguel!...
- Ai, que já não posso! Quiá, quiá, quiá!... Mas você, aposto que foi ver a Zana!
- Que tem?
- Eu fico mesmo tão assustada quando Inhá vai para aquelas bandas! Não é graça, não!
- Por que?... Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo e verá! Olhe, mãezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e meto-lhe um cipozinho, zás, zás, zás, que ele vai por aí gritando, ui, ui, ui!...
Nova gargalhada de nhá Tudinha, que já sentada no banco junto à mesa foi obrigada a erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem com as embigadas que lhe fazia dar o frouxo riso.
A esse tempo chegara Berta à porta e chamou o Brás, que se deixara ficar no meio do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos no lugar onde sumira a menina a quem ele acompanhava.
Depois que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos da convulsão em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando, procurou ela adormecê-lo, cerrando-lhe docemente as pálpebras.
Da posição em que estava junto à tapera da Zana, descobria-se uma volta da senda tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um serrote. Desde algum tempo seus olhos voltavam-se a espaços naquela direção, e agora, amiúde, com certa impaciência.
Vendo o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabeça em uma leiva de grama, e adiantou-se pelo trilho além, parando às vezes, para depois continuar.
Havia andado já grande extensão, quando reparou que fazia-se tarde; e malograda sua esperança retrocedeu ao lugar onde tinha deixado o Brás. Este porém já ali não estava; apenas se afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe seguira sorrateiramente e de longe os passos.
Quando viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo, que atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva. Rastejou então como um réptil, por meio da relvagem, e sumiu-se nas entranhas da terra.
Metera-se ele em uma espécie de fojo que tinha recentemente praticado em um barranco atufado de junças, e a cuja borda passava o trilho. Aí cavava o chão, com as unhas aduncas, e como tomado de um frenesi; até que percebeu, por uma repercussão da cova, o passo de Berta que voltava.
Vendo-o com as mãos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se pelo chão, a menina o ralhou brandamente e conduziu-o à casa onde acabava de chegar.
- Venha almoçar! disse Berta da porta.
- Não quero!
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.