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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— E de repente apagou-se o encanto! Flor tem dezenove anos. Sua mãe casou-se dessa idade, e há de estar pensando no enxoval da filha. Noivos não faltam. Já apareceu o primeiro, êsse capitão Marcos Fragoso. É moço, bem parecido, rico e fidalgo, pode agradar-lhe, e… 

Arnaldo estremeceu ante o pensamento que despontava, e arredou o espírito dessa idéia que incutia-lhe horror. 

— Já uma vez, prosseguiu êle, tinha-me enganado. Quando brincávamos juntos, cuidava que havíamos de ser meninos toda a vida; que eu poderia sempre carregá-la em meus braços; e ela nunca me veria triste, que não me abraçasse. E um dia ficou moça; e eu, que era seu camarada, não fui mais senão um agregado da fazenda!… 

Mas então ninguém veio roubá-la à casa onde nasceu, e a êstes campos que nos viram crescer juntos. Eu a via a todas as horas e podia adorá-la de longe, como a santa da minha alma. Agora?… Vai casar-se; um homem será seu marido! E ela deixará de existir para mim! E eu não verei mais o anjo do céu que me consolava? 

Arnaldo retraiu-se como quem concentra as fôrças para soltá-las de arremêsso. 

— Não! exclamou êle com um gesto enérgico. Flor não pertencerá a nenhum homem na terra. Ainda que seja à custa de minha salvação eterna! 

Proferida esta surda exclamação, arrojou-se pelo mato e momentos depois surdia na entrada da caverna, para onde quatro dias antes havia transportado o velho Jó. 

Sentado em uma saliência do rochedo, com o corpo imóvel e hirto, com as pernas dobradas e estreitamente unidas ao peito, com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça inserida entre os dois braços, o ancião parecia uma múmia indígena arrancada a seu camucim e alí esquecida. 

Entretanto seu espírito andava longe, lá fora da caverna, perscrutando o que se passava. Nenhum rumor soava na floresta, que seu ouvido atento não distinguisse para determinar-lhe a causa e conhecer, se era a queda de um fruto, a passagem de um animal, ou o farfalhar da brisa. 

Êle percebera aos primeiros ruídos a aproximação do sertanejo, e o reconhecera antes que penetrasse na caverna. De um relance leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas extáticas se movessem nas órbitas. 

Arnaldo parou na entrada, com os olhos fitos no velho: seu gesto denunciava uma hesitação rara em tão decidido caráter. Jó esperava que êle falasse. 

— Vieste confiar-me um segrêdo, filho; eu escuto, disse afinal o velho. 

— Vim para ver-te, Jó… respondeu o mancebo com uma reticência. 

— Eu conheço os pensamentos dos homens, como tu, filho, conheces as manhas do gado barbatão. Teu passo era de quem vinha impaciente de chegar; e o motivo que te trazia assim pressuroso está aí dentro, e tu o escondes. Já duas vezes te veio aos lábios. 

Não surpreendeu a Arnaldo essa admirável sagacidade a que estava habituado, pois ao velho devia êle em grande parte a perspicácia de que era dotado. 

— Queres saber o que me trouxe? Eu te digo. 

Arnaldo aproximou-se do velho e pôs-lhe a mão no ombro: 

— Tu que viveste longos anos, e conheces todos os segredos dos homens, deves saber também o que eu desejo. 

— Fala; tudo quanto a desgraça ensina ao pecador, eu o sei. 

— Se um homem quiser roubar-me o bem que me pertence, e que faz toda a minha felicidade, posso matá-lo, sem tornar-me assassino? 

O velho Jó ergueu-se de chofre e completamente transfigurado. As cãs erriçaram-se no crânio e os olhos saltaram-lhe das órbitas. 

— Por ouro, filho, não derrames nem uma gota de sangue de teu irmão; porque essa gota basta paramanchar todo o tesouro e torná-lo maldito. 

Travando das mãos do mancebo e conchegando-o a si, o velho prosseguiu: 

— Não sabes o que é o ouro, filho? Oh! eu sei, que m’o ensinou o demônio da cobiça. É o sangue derramado pelo punhal do sicário, que vai esconder-se nas entranhas da terra e coalhar-se em ouro. Ao calor do corpo, êsse coalho derrete-se, e o sangue tinge as mãos do homem. Porisso os alquimistas para fazer ouro ferviam sangue numa caldeira; mas êles não o tinham bastante, porque é preciso muito, muito sangue, para dar um queijo de ouro!… 

Jó soltou uma risada alvar e continuou a desarrazoar; mas as palavras rompiam-lhe dos lábios roucas e desconexas, de modo que já não era possível distinguí-las, nem compreender-lhes o sentido. 

Arnaldo estava afeito a êstes acessos, pois não mostrou o menor abalo; e acompanhando os gestos do velho com um olhar de comiseração, esperou que findasse o desordenado e soturno monólogo. 

Efetivamente foi Jó serenando e tornou à posição anterior, mas para sossobrar no abismo de recordações, que se abrira nas profundezas de sua alma. 

— Jó! disse Arnaldo com império. 

O velho ergueu a cabeça e fitou no mancebo a pupila baça, como um homem que emergiu das trevas. 

(continua...)

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