Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Nem uma nem outra coisa, respondeu-lhe o companheiro.
– Por quê?
– Porque se fossem irmãos conversariam, e se fossem noivos se estariam dizendo finezas.
– Então são namorados.
– É o mais provável.
A perturbação do moço e da moça foi tão visível então, que não pôde escapar
aos olhos de seus observadores.
Depois de alguns passos mais, a moça disse ao seu companheiro com voz quase sumida:
– Conversemos... senhor...
Mas foram indo sempre calados como até então.
Desde porém que aquelas palavras chegaram aos ouvidos da moça, qualquer fraco ruído, o sussurrar de uma conversa a pouca distância travada, tudo, em uma palavra, a assustava; tudo lhe parecia estar repetindo aquele insulto feito à sua inocência:
– São namorados.
Chegaram enfim aquelas quatro personagens ao largo principal, e ladeando-o pela direita, entraram no caramanchel desse lado, e sentaram-se nos bancos de pedra.
Ficaram então todos quatro descansando em silêncio debaixo daquele belo teto de jasmins da Índia, e como se a melancolia dos dois moços se houvesse propagado aos velhos, estiveram estes tristes e suspirando, até que o ancião quebrou inopinado o silêncio, dizendo:
– Então... que quer dizer isto?... vimos passear e divertir-nos, e estamos tristemente olhando uns para os outros?...
– Parece, respondeu a velha, que estes meninos nos pegaram sua tristeza.
– Não, tornou aquele; não mintamos a nós mesmos: queres saber, Celina, por que nossa velha amiga se tornou de súbito melancólica?... quer saber, sr. Cândido, por que me sucedeu o mesmo?...
Os dois mancebos levantaram pela primeira vez os olhos, e os fitaram em Anacleto, como dizendo cada um deles: – quero.
– É que nos estamos lembrando do passado! disse Anacleto.
Irias murmurou tristemente:
– É verdade! é isso mesmo.
– É que vemos ir-se tudo mudando em torno de nós. É que sentimos irem morrendo uma a uma todas as testemunhas de nossos gozos dos belos anos... e aqui mesmo, a não serem essas árvores copadas que resistem ao tempo, e essas duas pirâmides, que não sei por que milagre não se lembraram ainda de lançar por terra, nada, nada mais haveria do que era nosso! tudo teria morrido... tudo estaria mudado, pois que até se matam os nomes...! – É verdade! tornou a velha.
– Vós, mancebos, não sabeis nada disto! houve no entanto um tempo, uma época como outra não haverá nunca mais para esta cidade. Eu era tão moço como vós, e vi e gozei tudo isso; havia paz e ventura para todos, e cada noite era uma noite de festa. Os moços saíam tocando e cantando pelas ruas suas músicas suaves; as famílias reuniam-se em uma só família para gozar prazeres inocentes; dormia-se com as portas abertas, e nunca um malfeitor entrava por elas... Tudo porém acabou, e este mesmo lugar, onde tão belas horas se passavam, já talvez nem delas lembrarse pode, porque enfim tudo está mudado... vossa civilização matou tudo isso!
Ninguém respondeu.
– Vistes, continuou Anacleto depois de curto silêncio, vistes aquela rua que vem direito ao portão deste passeio?... vós hoje chamais – das Marrecas – e nós chamávamos então – das Belas-noites: – compreendeis o que significava este nome?... era a demonstração viva do prazer, da felicidade que fruía a multidão imensa de ambos os sexos, que passava por essa rua para entregar-se a gozos puros aqui. Sobre estas grandes mesas, junto de uma das quais estamos, ceavam famílias a quem os laços de amizade ligavam, e nas quais havia às vezes um mancebo e uma moça que não tarde se ligariam por outros laços mais doces ainda. Oh! quantas vezes debaixo deste caramanchel, ou em um passeio, ali por aquelas ruas sombrias e solitárias, não teve origem um terno sentimento, que foi logo depois fazer a felicidade de duas criaturas!...
Uma leve onda de rubor passou ligeira por sobre as faces de Celina, ao mesmo tempo que Cândido se fez mais pálido ainda.
Irias, até então distraída, começava a observá-los, fitando ora na moça, ora no mancebo seus olhos verdes.
Anacleto prosseguiu:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.