Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Vinte e quatro, respondeu a viúva.

— E V. Ex.ª, senhora D. Raquel?...

— Vinte e cinco, disse Raquel rindo-se.

As três moças viram-se felizmente livres de seus cruéis perseguidores; no entanto, Félix achava-se preso, desde que entrara Honorina, nas redes de sua interessante prima Rosinha. A moça, no meio de uma roda de quatro ou cinco companheiras tão travessas, tão galantinhas e levianas como ela mesma, entretinha o primo, contando-lhe uma história muito comprida e cheia de mil supérfluos episódios, tendo, porém, os olhos fitos na bela romântica.

Quando conheceu que seu primo não poderia obter mais contradança alguma de Honorina, exclamou:

— Oh!... mas, meu pensamento, nós nos esquecíamos de que meu primo deverá estar ansioso por alcançar para uma quadrilha o sim da interessante senhora que acabou de entrar... vá, meu primo, se já não veio engajado de casa, vá depressa.

— Sim, minha prima, eu vou... porém... minha prima ainda me não deu uma contradança...

— Eu já tenho par para todas, disse a moça soltando uma risada, que foi acompanhada pelas das outras moças.

— Muito sinto, disse Félix fazendo-se vermelho. Conheço perfeitamente que as senhoras zombavam de mim; mas protesto que a jovem romântica me vingará.

Félix aproximou-se de Honorina... falou... e em resposta escutou essas terríveis palavras, que ela já de Raquel tinha aprendido; essas cinco palavrinhas, que ainda pronunciadas com toda a doçura por uma boca de moça bonita, têm gosto de fel, e pesam, e soam horrivelmente para os pobres rapazes, que, mal as ouvem, voltam-se desapontados.

Às oito horas e meia da noite teve princípio o sarau. Será bom considerá-lo em três partes distintas.

XII

Começa o sarau

Uma bela ouverture foi o sinal do começo do sarau. Logo depois dançou-se a primeira quadrilha. A prova de que Honorina recebia as honras da noite é que todos os olhos estavam fitos nela, como querendo beber seus movimentos.

Não se diga, nem se pense, que loucura é querer concluir da graça de uma bela jovem dos vaivéns que simplesmente fazem as moças, quando contradançam. É inegável, que nos mais brilhantes saraus, a dança não passa, quanto aos homens, de meia dúzia de arrasta-pés acompanhados de outras tantas cortesias, e quanto às moças, de igual número de interessantes deslizamentos; porém, quando uma senhora tem em si isso, que se não pode explicar, mas que por demais se sente no coração, isso que alguns têm chamado graça, mas que não se diz tudo, dizendo-se somente graças; porque graça não define essa bela reunião de uma boca, donde saem palavras que nos fazem sempre sorrir de gosto e que nos ficam de cor; de olhos, cujas vistas nos obrigam a hesitar e estremecer e que penetram até o âmago de nossos corações; de um mimoso andar, que nos faz embeber os olhos nos vestígios das pisadas que deixou, para procurarmos ver alguma coisa que não vemos, mas que devera ter ficado ali; do mimoso andar de um corpo, que deixa na coluna de ar que cortou alguma doce... encantadora... inefável exalação de si próprio, como a rosa impregna de seus eflúvios a branda aragem que lhe varreu a face... isto tudo, e muito mais ainda, que nenhuma boca pode dizer, que nenhuma pena pode explicar, não é somente graça... é antes um sopro saído dos lábios de Deus, que cerca de uma atmosfera mágico-celestina a criatura feliz: não é somente graça; ou então é a graça de Deus.

Pois este dom sagrado, que nenhum homem tem, que pertence exclusivamente a algumas senhoras, pode-se apreciar e de fato se aprecia nas próprias contradanças francesas, apesar de toda a sua monotonia e desagradável simplicidade. E Honorina o tinha!... e eles, pois, a viram andando... (porque dizer dançando, além de uma mentira, seria fazer um insulto ao bom gosto da época), e eles, pois, a viram andando... não... deslizando-se doce e imperceptivelmente, como um leve batel, a quem o sopro do brando zéfiro faz lamber a superfície de um lago sossegado!... e ainda mais: para o encanto ser completo, Honorina, de momento a momento, tornava-se dobradamente interessante. Com efeito, Honorina havia entrado na sala mais pálida do que era; trêmula, receosa, com os olhos baixos, e toda cheia desse acanhamento que acobarda a jovem campesina, que, pela primeira vez aparece em uma assembléia da corte, cônscia de sua ignorância, dos usos do belo tom, ela temia que em cada simples vista de seus olhos houvesse um erro, em cada palavra sua um crime de leso-bom gosto; por isso ela tinha os olhos no colo, e respondia apenas por monossílabos; porém, sua organização eminentemente nervosa lhe devia dar a vitória sobre si mesma. Desde que a música rompeu, o milagre foi operado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4041424344...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →