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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Era meia-noite.

Desta hora até às cinco da manhã Hermenegildo pediu água já nos demorados paroxismos, e ninguém se abeirou do seu leito.

Cinco horas vasquejou sozinho, e, aos primeiros assomos do dia, rendeu... a alma.

Rosa, acordada pelo futuro marido, perguntou se o patrão tinha acabado.

― Acho que sim, que já não ouço nada – disse o criado, e foi chamar o primo de Atanásio para tomar conta de algumas arrobas de carne em putrefação, onde estivera uma alma “criada à imagem e semelhança de Deus”. A tolerância divina permite semelhantes blasfêmias.

XXII FELICIDADE SUPREMA

Em abril de 1850, Ângela e Joana, sentadas no quintalinho de sua casa, debaixo duma amendoeira florida, ao entardecer, descansavam do trabalho do bastidor de que tiravam bons lucros em bordados de ouro.

Joana, embelezada na formosura de sua amiga, dizia-lhe:

― Como vossa excelência, nesta pobreza, ganhou o que tinha perdido na opulência da sua casa! É bem certo que a felicidade está em mui pouco! Eu a temer que a Sr.ª D. Ângela envelhecesse nestas estreitezas da nossa casa, e não se habituasse a isto; e quis Deus que, em dez meses, eu a não visse triste senão quando veio a primeira carta do meu Francisco...

― Pois olhe, minha amiga, eu estava agora triste...

― Por quê?! Vi-a calada; mas cuidei que não era tristeza...

― Era...

― E é segredo?

― Não, minha amiga... Segredos quando eu não posso distinguir as nossas almas uma da outra... Eu lhe conto... Estava a dizer comigo: o meu futuro qual será? Tenho vinte e nove anos. Se me recordo do que passei, imagino que a vida já é longa e deveria estar por pouco; mas, diante de mim, vejo os anos demorados daqui até à velhice, até aos sessenta anos da nossa Vitorina, que espera ainda viver até os oitenta. Muito se vive quando se sofre!... E o que mais espanta é que nem a desesperação infunda um sincero desejo de morrer... Aqui estou eu a lastimar-me, a perguntar o que há de ser de mim, a ver a precisão de se acabar esta sossegada vida que tenho; e, apesar do escuro das minhas nenhumas esperanças, desejo viver... para quê?

― Deus lho irá dizendo, minha senhora. Se eu dissesse à minha amiga que esperasse resignada, seria uma indiscreta conselheira. Quem pode dar lições mais sublimes de paciência que a Sr.ª D. Ângela?

― Paciência, sim; não me há de abandonar esta providência dos infelizes... – disse Ângela, concentrando-se outra vez com desacostumada melancolia.

― Então que é isso? – disse meigamente Joana, tocando-lhe nas mãos que ela enclavinhara amparando a fronte.

― E seu irmão? – disse Ângela, como se a pergunta saísse de um diálogo mental.

― Meu irmão? O quê, minha amiga?

― Não o hei de ver mais?

― Por que não, Sr.ª D. Ângela? Pois que razão há para que o não veja?

― Quando a felicidade do coração se tornou impossível...

― Impossível, não. Vossa excelência quis ser noutro tempo esposa de meu irmão. Quem sabe se um dia poderá mais livremente dispor da sua vontade!... Seu marido tem bastante idade...

― Eu era nesse tempo a mulher com o prestígio que se desfez... Esse homem, que me prendeu ao remorso e vergonha de me deixar vencer da compaixão e dos baixos pensamentos de ser rica, igualou-me a qualquer mulher vulgar... Se eu desmereci aos meus próprios olhos, autorizei todo o mundo a considerar-me aviltada...

― Não diga isso, minha senhora... – atalhou Joana, tomando-lhe as mãos cariciosamente. – Pois não vê nessas sinceras confissões de meu irmão como ele a amava?...

(continua...)

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