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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Estas últimas palavras foram ditas com certa comoção. Meneses não perdeu a esperança de o vencer. A sinceridade era a sua eloqüência; podia-se dizer que ele falava com o coração nas mãos. O espírito de Félix ia cedendo ao encanto; ele mesmo recordava as horas felizes do passado e as saudosas esperanças do futuro. O coração palpitou-lhe com mais força e a imaginação fez o resto. A carta, porém, a fatal carta lhe ocupou logo o pensamento, e a fronte descaiu diante do insuperável obstáculo. Cansado de lutar, Meneses resolveu partir para a cidade.

—Não sei o que pensarão os outros, disse ele; eu levo a suspeita de que não a amaste nunca, e que esse rompimento estrepitoso foi um meio de salvar a tua liberdade. Ouvindo estas palavras, Félix não pode conter um gesto de cólera. A atitude quieta de Meneses o fez cair em si.

—Tens razão, disse ele depois de algum tempo. Quero que pelo menos alguém me reconheça inocente e digno. Dás-me a tua palavra de honra que nada revelarás do que vais ler?

— Dou.

Félix foi buscar a carteira, tirou dela a carta, e entregou-a a Meneses. Meneses leu o que se segue:

Mísero moço! És amado como era o outro; serás humilhado como ele. No fim de alguns meses terais um Cireneu para te ajudar a carregar a cruz, como teve o outro, por cuja razão se foi desta para a melhor. Se ainda é tempo, recua!

A carta não tinha assinatura.

Meneses ficou atônito; mas foi obra de alguns instantes, poucos. Sua índole generosa repelia a idéia de acreditar na revelação que acabava de ler.

— É impossível! disse ele.

Félix ergueu a cabeça, que apertava entre as mãos, e replicou:

— Essa é a tua convicção; eu quisera que fosse a minha. Mas que testemunho tens tu contra o que aí vês escrito?

— Não sei, respondeu Meneses com calor, mas e o que me diz o coração. Repugna-me crer que essa pobre senhora... Não, é impossível! Demais, uma carta anônima!

— Põe o nome que quiseres aí embaixo não lhe aumentas nem lhe tiras o valor, se a revelação é verdadeira.

— Quem te diz que é verdadeira?

— Quem me diz que o não é? A dúvida era já bastante para justificar o que fiz. Não foi só o receio do futuro que me impeliu, foi principalmente a lembrança do passado. A traição dela, se a houve, não devre doer nada ao marido que se foi; mas ao marido que vem, a idéia da perfídia anterior destrói pela base toda a confiança, que é a condição da felicidade. Não sei o que farias tu no meu caso; eu segui o impulso do coração e da razão.

Meneses ouvira atentamente o amigo. Quando ele acabou:

— Creio-te sincero, disse; e compreendo que sofreste.

— Muito!

— Mas recusarás uma reflexão? Quem escrevia esta carta? Não foi um amigo, decerto. Um amigo, se lhe pesasse o teu ato, viria falar-te cara a cara. Um indiferente também não foi. Resta, pois, um inimigo, teu ou dela...

— Dela?

— Ou um interessado: escolhe.

Félix refletiu um instante.

— Inimigo, não sei se os tinha; interessado. . em quê?

— Ela é rica; algum pretendente...

— Não havia nenhum.

Meneses não fraqueou na defesa da sua hipótese. Quanto mais atentava na revelação da carta, mais o coração lhe bradava contra ela. Para ele a inocência de Lívia era clara como o sol. Félix sentia-lhe a convicção, e lastimava-se de a não ter, tão viva e tão profunda. A noite caíra de todo. Meneses declarou que só voltaria à cidade no dia seguinte.

Félix compreendeu que o amigo não perdera a esperança de o converter, e longe de se irritar agradeceu-lhe a intenção. Era a primeira vez que ele se expandia com alguém a respeito do seu amor; fê-lo com abundância e sinceridade. Não lhe lembrara sequer que Meneses também amara a viúva.

Muitas vezes falaram da carta. Meneses perguntou ao médico em que circunstancias a recebera. Félix referiu a visita de Luís Batista, o objeto dela, a conversa travada entre ambos, até que a carta lhe chegou às mãos.

A singularidade da visita de Luís Batista não escapou a Meneses. :

— Visitava-te esse homem? perguntou ele.

— Nunca.

— Eras amigo dele?

— Havia mais razoes para sermos inimigos que outra cousa.

Meneses hesitou; não se atrevia a desposar uma suspeita. Mas o espírito do médico era terreno fecundo para ela. Apenas as perguntas de Meneses lhe deitaram o gérmen, para logo foi lançando raízes e cresceu.

— Crês então que ele?... aventurou o médico.

— Não sei; mas, não te parece curiosa toda essa história de gravuras? Félix refletiu algum tempo. Como quando os olhos se vão acostumando à meia-luz de um sítio, e começam a distinguir a pouco e pouco os objetos, o espírito do médico entrou a recordar e a examinar todos os incidentes daquela fatal manhã. O que ele a princípio não vira, apareceu-lhe então claro e evidente. O tom ameno e jovial de Luís Batista, a sua estranha verbosidade, o episódio dos amores tão levemente contados a um homem que não era seu natural confidente, tudo isto com a circunstancia da humilhação que recebera quando a viúva lhe fechou a sua sala, enfim a má reputação dele, eram indícios de sobejo para não achar natural a visita que lhe fizera. Mas, como deduzir daqui a autoria da carta?

Meneses resolveu a dúvida naturalmente.

(continua...)

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