Por Lima Barreto (1922)
Além daquelas medidas que citei em um dos capítulos passados, logo no início do seu ministério, tomou o visconde estas primordiais; usar pape! de linho nos ofícios, estabelecer uma cozinha na sua secretaria e baixar uma portaria, determinando que os seus funcionários engraxassem as botas todos os dias. Na cozinha, porém, é que estava o principal das suas reformas, pois era o seu fraco a mesa farta, atulhada.
Em seguida, convenceu o Mandachuva que o país devia ser conhecido na Europa por meio de uma imensa comissão de propaganda e de anúncios nos jornais, cartazes nas ruas, berreiros de camelots, letreiros luminosos, nas esquinas e em outros lugares públicos.
A sua vontade foi feita; e a curiosa nação, em Paris foi muitas vezes apregoada nos boulevards como o último específico de farmácia ou como uma marca de automóveis. Contam-se até engraçadas anedotas.
Nos anúncios luminosos, então, a sua imaginação foi fértil. Houve um que ficou célebre e assim rezava: "Bruzundanga, País rico — Café, cacau e borracha. Não há pretos".
Não ficou aí. Mostrou a necessidade de uma esquadra poderosa e o Mandachuva encomendou uma custosíssima, para o serviço da qual o país não tinha marinheiros dignos, arsenais, é que pôs de alcatéia a República das Planícies. Tudo isto e mais a transformação da capital, da noite para o dia, fato a que já aludi, endividaram sobremodo o país e, com a vinda de um inepto Mandachuva, para cuja ascensão ele muito concorreu, a Bruzundanga veio a ficar na miséria.
Por essas e outras, foi Pancome proclamado o maior estadista da nação, embora a situação interna, durante o seu longo ministério (quase dez anos), piorasse sempre e cada vez mais, sem que ele apresentasse ou lembrasse medidas para remediar um tal estado de descalabro.
Tirassem-no das coisas fantasmagóricas e berrantes que feriam a vaidade pueril do povo, fazendo este supor que a Bruzundanga era respeitada na Europa; tirassem-no daí que ninguém era capaz de sacar-lhe da cachola uma idéia de governo, um alvitre de verdadeiro estadista.
Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à míngua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores. Mas o povo, graças aos poetas e jornalistas simoníacos, não queria capacitar-se de que Pancome era simplesmente decorativo e continuou a admirá-lo como um semideus.
E ele fazia o que queria e se agora estava atrapalhado com a nomeação de um amanuense, não era porque fosse do seu natural respeitar as leis.
Há um pequeno e passageiro temor da natureza daquele que sentem os heróis quando vão entrar em combate.
Já nomeara pouco mais de meia dúzia por meio de concurso mas não estava satisfeito com essas nomeações.
E verdade que os que nomeara, trajavam regularmente, engraxavam as botas e não tinham nunca o colarinho sujo. Eram já grandes qualidades, porque de tal forma viera a encontrar o pessoal da secretaria, esbodegado, relaxado, vestindo roupas baratas, morando nos subúrbios, que foi necessário toda a sua energia para que ele modificasse tão maus hábitos.
As verbas do ministério pagaram a quase todos, desde o servente até um chefe de secção, ternos bem talhados, camisas finas, botinas de bom cabedal, etc. Assim, conseguira dar um ar de Foreign Office ou de Quai d'Orsay à modesta Secretaria de Estrangeiros do modesto país da Bruzundanga.
A sua atrapalhação estava na tal história do concurso, pois até ali, devido a tão tola formalidade, não conseguira ter nos cargos de amanuenses moços bonitos e demais, para fazer concursos, sempre apareciam uns rebarbativos candidatos de raça javanesa, com os quais ele embirrava solenemente.
Da última vez, até, quase que um atrevido javanês puro consegue o primeiro lugar, tal era o brilho de suas provas; Pancome, porém, arranjou as cousas tão lealmente diplomáticas que o rapaz perdeu a última prova.
Não queria que a cousa se repetisse e estudava o modo de, evitando o concurso, encontrar um candidato bonito, bem bonito, não sendo em nada javanês, que pudesse oferecer aos olhares do ministro da Coréia ou do Afganistão um belo exemplar da beleza masculina da Bruzundanga.
Todos os candidatos que se haviam apresentado não preenchiam essa exigência do seu alto critério governamental.
Alguns eram mesmo feios, outros
tinham toques de javanês, e nenhum a beleza radiante que ele queria ver nos
amanuenses.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.