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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

E continuou loquaz e jovial, jovialidade e loquacidade a que não era estranho o álcool que já bebera durante o dia todo. Continuou:

— Eu cá sou amigo... Não sou um dia de um, um dia de outro. Mais um “chopp”.

Bebeu e emendou:

— Vocês viram o que se deu com o Dr. Macieira... Ele está aí e não me deixa mentir... Quando o “velho” lhe andava fazendo fosquinhas, quem é que o procurava? Um ou outro. Eu cá não, sempre estive a seu lado. Mais um “chopp”.

Os copeiros serviram e ele aduziu sentenciosamente:

— Esses homens são adulados, quando estão por cima; mas, logo que rosna qualquer coisa, tudo foge. É isto. Vamos beber!

Falando e bebendo, Lucrécio sorveu bem uma dezena de copos de cerveja; mas, quando ia ultrapassá-los, passou pela sala o Dr. Macieira. Barba-de-Bode correu-lhe ao encontro:

— V. Exa. dá licença?

— Que é que você quer, homem? Já bebeste como o diabo, hein?

— Alguma coisa. Queria agora beber à saúde de V. Exa. — Deixa isso para mais tarde. Agora...

Lucrécio deitou sobre o poderoso político um súplice olhar de desgosto e Macieira não achou mau dar uma demonstração de tolerante bondade pelos humildes. Disse com bonomia:

— Bem! Vá lá!

— Sr. senador Macieira — começou Lucrécio. — Neste momento solene...

E parou como se buscasse palavras, termos, imagens. Esteve um instante calado, com a boca fortemente fechada: houve um imperceptível movimento nos músculos da garganta, movimento de quem tenta engolir alguma coisa. Por esse tempo, começaram a vir da sala convivas, damas e cavalheiros, curiosos de travar conhecimento com a eloqüência de Lucrécio.

Ao ver tanta gente à sua roda, animou-se e continuou: — Sr. Senador — mas não pode acabar. Veio-lhe um forte vômito e, antes que pudesse correr à janela, despejou-o ali mesmo, borrifando o peitilho do famoso senador e a barra das saias daquelas grandes damas. Lançou, lançou tudo o que tinha no estômago.

O triste final do discurso causou hilaridade, mas houve quem se indignasse. Entre estas pessoas quem mais se indignou foi o Dr. Chaveco. Logo que soube, correu à sala do “buffet”.

— Tá bebo... Chama aí um poliça... Mete ele no xadrex.

Houve um grande esforço por parte dos presentes para que não fizesse prender o Lucrécio.

— Mas sô chefe! O homem bebe... que faço então? Neves Cogominho, Macieira, Numa, Souza, Pieterzoon, Costale e todas as senhoras interessaram-se, conseguindo dissuadi-lo de efetuar a diligência. Lucrécio foi levado para um dos quartos dos criados; e o Dr. Chaveco, apanhando o chapéu e a bengala, sem castão nem ponteira, despediu-se:

— Tá bão.... Inté manhã!

Aquele chefe de polícia era bem um chefe de polícia do tempo. Ingênuo e submisso, por necessidade de submissão agradecida, procurava onde aplicar suas terríveis funções. Queria de qualquer modo mostrar energia e provar ao protetor que estava atento, que velava pela sua segurança e respeitabilidade.

As visitas tinham voltado à sala de visitas; e, na sala do “buffet”, a um canto, ficaram ainda a tia de Cogominho e algumas outras senhoras. O Dr. Chaveco entrou de novo, batendo com a bengala no assoalho, ao jeito do banho de um pastor bíblico:

— D. Romana — disse ele — me esqueceu uma coisa...

— Que foi, Doutor?

— A modo que não levei uns rebuçado pros meninos.

— Pois não, Doutor.

— Tem artéa, siá Dona? O Juca tá cum tosse.

— Não, Doutor. Quer de amendoim? — Serve, Dona.

Sentou-se a uma cadeira, enquanto a velha senhora tratava de preparar o embrulho de balas. Bogoloff, que viera tomar um copo de cerveja, acercou-se do chefe e indagou, ao vê-lo com chapéu e bengala:

— Já vai, Doutor?

— Já moço; Drumo c’os pintos. É mais bom pra saúde.



(continua...)

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