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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Sabendo que Meneses estava todos os dias com Clara, Cassi, que havia resolvido pôr cerco à rapariga, tratou de aproveitar o estado de miséria, de abatimento moral em que estava o velho dentista, para realizar os seus inconfessáveis fins. Encomendou-lhe aqueles versos que deviam ser feitos por Flores e deu-lhe dinheiro, já prevendo que Meneses gastá-lo-ia e não obteria os versos. Tudo isto aconteceu; mas Meneses, quando, no dia seguinte, se lembrou da recusa de Flores e de ter gasto o dinheiro, não achou outro alvitre senão ele mesmo fazer os versos. Ficou o dia inteiro a martelar, a riscar, a emendar e, ao fim do domingo, tinha feito algumas quadras com mais ou menos sentido. Nunca, a bem dizer, fizera versos: mas, tendo corrido montes e vales, lidara com poetas e tinha o ouvido educado. De resto, escolhera o metro popular, a quadra de sete sílabas; e tanto fez que, pela tardinha, a poesia estava pronta, e o pobre velho ficou muito contente consigo mesmo, como se tivesse feito obra de vulto. Bebeu bastante e dormiu satisfeito. Havia cumprido a sua palavra de qualquer forma. Se os versos não eram de Leonardo Flores, eram dele. Não seriam tão bons; mas, pelo menos, desculpariam o gasto dos cinco mil-réis, que lhe remordia a consciência.

Na segunda-feira, à noite, depois de ter andado por toda a parte, com a sua velha mala de ferros de cirurgião-dentista, Meneses foi se postar no botequim do Fagundes. Sentou-se, como de hábito, na última mesa, aos fundos, encostada à parede, com um jornal debaixo dos olhos e um cálice de parati na frente. Ele bebia aos goles, à vista de todos, sem vexame algum. Fazia-lhe mal, como mal faz a todo mundo; mas era solicitado a beber para se atordoar, para não se recordar, para não estar só com o seu passado, para afugentar o terror que a vida lhe inspirava, na miséria, quase indigência em que se achava, naquela idade avançada de mais de setenta anos, alquebrado, doente, sem uma amizade forte, sem um parente que o amparasse, sem uma pensão qualquer.

Cassi foi encontrá-lo engolfado na leitura do jornal:

— Pensei — disse ao sentar-se — que o doutor se havia esquecido.

Meneses, descansando o modesto pince-nez em cima da mesa, onde já havia posto o jornal, respondeu:

— Qual o quê! Sou homem de palavra... Demais, o senhor me havia dado o dinheiro, e, assim, o trato ficava mais sagrado.

Cassi tinha uma grande dificuldade em ser amável, tornar a entonação de voz conveniente, adaptar o olhar a ela, ajeitar adrede os músculos da face...

Não era capaz disso quando sincero, que fará quando falso! Todo ele era rude, metálico, grosseiro e áspero. Enfim, fez o que pôde e disse:

— Por isso, não, doutor! Eu não me lembrava de tal fato! Aquilo foi para uns beberiques... Arranjou?

— Arranjei; mas não com o Leonardo.

— Ele não quis ou...

— Não; estava bom. Como já lhe disse em certa ocasião, Flores é por demais orgulhoso, quando se trata de versos dele; e, ao falar-lhe no "negócio", deitou-me um discurso enorme, dizendo que era isto e aquilo, tinha feito tais e quais coisas e, por fim, que não vendia versos.

— Nem dados?

— Não lhe propus; mas estou certo que não daria. Pelo que disse, os versos que lhe saíam da cachola eram dele e só dele.

— E com quem arranjou?

— Fi-los, eu mesmo, Não serão...

— Vamos ver, doutor.

Meneses puxou, de dentro da algibeira do interior do fraque cinzento, um volumoso embrulho de papéis sebosos, procurou o que continha os versos, pôs o pince-nez e disse:

— Vou lê-los, para o senhor compreender melhor. A minha letra é muito ruim. — Leia, doutor.

Meneses concertou os óculos, experimentou uma melhor posição para receber a luz e começou:

A minha Querida pena

Nas grades de uma prisão, Mas o Amor lhe ordena Sossego no coração.

O velho dentista ambulante, afinal, acabou e olhou interrogativamente o menestrel. Tinha este tomado um ar grotesco de entendido e olhava vago, simulando que ajustava pensamentos. Após ter Meneses perguntado o que achava dos versos, o manhoso violeiro disse:

— Não era bem isto que eu queria. Os versos, porém, não estão maus, antes são bons. Serve até para modinha... O doutor não sabe quem faça música para modinhas?

— Conheço o Joaquim dos Anjos.

— Ah! É verdade! Como há de ser? — perguntou Cassi, simulando embaraço. — O senhor não se dá com ele?

— Dou-me; mas não tenho muita intimidade. Se fosse por intermédio da filha? Por que o doutor não pede?

— Posso pedir a ela; mas o padrinho —não sei por quê — não gosta do senhor. Se ele sabe..

Meneses arrependeu-se de ter avançado tanto, mas a sua vontade já era tão fraca que não soube, nem procurou meios e modos de fugir às conseqüências de sua confidência. Cassi aproveitou-se das aberturas do velho e disse:

— Sei; mas escrevo uma carta à Dona Clara a fim de que ela evite a má vontade do padrinho e que se saiba ser a modinha...

Meneses não pôde reprimir um movimento de espanto.

— Não tenha susto, doutor; absolutamente não malicie no que vou fazer. A carta será lida pelo senhor.

Meneses ficou mais seguro de si e continuou a beber com vontade, enquanto Cassi contava-lhe os seus ganhos extraordinários no cangueiro, jogo suburbano.

— Olhe, doutor — rematou ele — , quando precisar de algum, é só pedir.

O dentista já estava muito adiantado na embriaguez; e, ao ouvir aquilo, olhou, desejoso e mendicante, para o violeiro, que se apressou em ir ao seu encontro:

— Quanto precisa, doutor?

— Dois mil-réis, só.

— Não — disse Cassi, tirando um maço de notas da carteira — , leve cinco; e não se esqueça de estar aqui, amanhã, às sete horas. Preciso da música para breve.

(continua...)

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