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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Com que... pensou ele; sonhei que a vi morta, e ela com efeito morreria, justamente nessa ocasião... Logo, Deus não me abandonou de todo, e, ao contrário, protege-me, envolvendo-se neste meu amor pecador e profano!... Ah! sim, recordo-me agora que, no estranho sonho dessa noite, a própria Alzira me dizia que o Criador é o grande e nutriente manancial de ternura, que noite e dia se derrama sobre o mundo, para o fecundar, como o sol fecunda a terra!... Sim! sim! agora tudo compreendo! É Deus que vem em meu socorro! é Deus que me acode e me aparece em sonhos, como fazia antigamente com os eleitos do seu amor!... Sim! é que o pai misericordioso, reconhecendo a minha inocência e a pureza do meu desespero, enviou-me por um dos seus anjos o beijo de paz! ...

E, abrindo ambas as mãos sobre o peito, respirou desabafadamente, e, cousa que havia muito não fazia, sorriu.

— Ah! suspirou; que dose tranqüilidade sinto agora invadir-me a alma!...

Obrigado meu bom pai! meu bom senhor! meu bom amigo!

E deixou-se cair de joelhos no chão, com os braços abertos e os olhos erguidos para o céu, na favorita postura dos seus êxtases.

— Meu protetor e meu abrigo, disse contritamente; às vossas sacrossantas mãos me entrego todo, para que me protejais contra as cousas vis e torpes deste lameiro de lágrimas!... Minha alma já não sente o frio que a torturava; sente-se aquecida e agasalhada no aconchego do vosso peito de amor e perdão, sente-se fortalecida na fé e na confiança da vossa infinita bondade! Meu coração, pai dos desamparados, já me não quer saltar encandecido de dentro do peito em brasa, e meu sangue já me não ameaça sufocar o cérebro com uma terrível e infernal onda de fogo... Obrigado, meu Deus!

E acrescentou, depois de respirar de novo, sorrindo para o espaço:

— A luz da vossa divina graça principia a iluminar-me, como nos primeiros tempos da minha virginal pureza d’alma. Vou adormecer como dantes, como um justo, como um dos vossos servos bem-aventurados... Amanhã poderei enfim celebrar o sacrifício da missa, sem o menor escrúpulo de consciência... Já não recearei que meus lábios queimem a hóstia consagrada com o fogo que os abrasava... Obrigado, meu Deus!

E fez o sinal-da-cruz, ergueu-se, e recolheu-se à cama. Daí a pouco dormia tranqüilidade, sorrindo como uma criança.

A casa adormeceu também. Só se ouvia o vento da noite sussurrar nas folhas dos castanheiros lá fora na estrada.

Ângelo principiou a sonhar:

Um coro etéreo descia dos céus e vinha cantar-lhe ao ouvido o epitalâmio dos anjos. O nicho da Virgem iluminava-se de fogos cambiantes, derramando no aposento uma doce claridade de luar multicolor, e a Santa sorria para ele, banhada de ternura, toda de branco e coroada de flores de laranjeira, como uma noiva.

Ângelo volta-se todo para ela e sonha que lhe estende os braços, pedindo-lhe que desça do seu altar e venha colocar-se ao lado dele.

Mas a Virgem começa a tomar as feições de Alzira. A sua branca roupa de noiva transforma-se em longa túnica mortuária, soltam-se-lhe os cabelos c caem-lhe pelas espáduas, como os da morta do castelo de Aurbiny.

Os olhos tingem-se-lhe de uma sinistra sombra cadavérica, e os seus lábios fazem-se roxos e tiritantes de frio.

Ângelo tem medo e volta-se todo contra a parede, cosendo-se aos travesseiros e tremendo aflito.

Mas o espectro de Alzira desce do nicho, e dirige-se para a cama dele.

Ângelo, frio de terror, sente-lhe os passos no chão, e ouve o estranho pisar daqueles pés duros e ossificados pela morte.

Retrai-se, encolhe-se, e arqueja com o rosto escondido.

Mas Alzira vai até à cama, verga-se sobre ele e toca-lhe no ombro com a mão gelada.

O mísero quer gritar e não pode.

Ela senta-se ao lado dele. e beija-lhe os cabelos.

Ângelo estremece, mas um voluptuoso fluido percorre-lhe o corpo inteiro, acorda-lhe o coração do sobressalto em que estava, e o seu medo vai a pouco e pouco desaparecendo.

— Ângelo!... disse-lhe ao ouvido o espectro, com a voz mais doce e amorosa que um suspiro de saudade; Ângelo, amado de minha alma! ... Ouve! ... Volta-te para a tua Alzira!... Escuta-me!...

— Alzira? exclamou ele, voltando-se.

— Sim, meu amado, sou eu...

— Que desejas de mim?... De onde vens?...

— Venho de muito longe... venho da outra margem da vida, que tu ainda não conheces... venho do mundo dos mortos, mundo de sombras e de sonhos!... venho de onde nada se conserva desta vida senão a memória de ser aqui que amamos!...

— E que desejas de mim?...

— A tua companhia. Venho buscar-te.

— Buscar-me?...

— Sim. Com a força do meu amor, consegui vencer o abismo que nos separava e chegar até aqui. Minha alma foi arrojar-se aos pés de Deus e pedir-lhe, pelo muito que sofri em vida por amar-te em segredo, que lhe concedesse a graça de aparecer-te todas as noites durante o sonho. Deus, apiedado, porque eu te não possuí na vida dos sentidos, consentiu que me pertencesses nesta existência espiritual, melhor que a outra. Aqui me tens, e todas as noites, mal adormeças, eu virei buscar-te.

Ângelo escutava-a atentamente.

— E para onde tencionas levar-me?... perguntou depois do primeiro abalo.

(continua...)

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