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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Perfeitamente. Contei­lhe tudo na mesma noite, mas sem declarar que se tratava da filha do comendador Moscoso, porque ignorava semelhante circunstância...

— E o que disse ele?

— Ligou pouca importância às minhas palavras, e afiançou­me que tudo passaria dentro de uma semana.

­­ E passou?

— Não. Cresceu!

— Mesmo depois de saber quem é meu pai?...

— Sim, minha senhora; mesmo depois disso...

— Entretanto não seria mau esperar até ao fim da semana...

— Para quê? para convencer­me de que sou o mais desgraçado dos homens?

— Ou a mais impaciente das crianças....

— Vê! V. Exa. zomba de mim, enquanto eu...

— Vai dizer que sofre, e é exato; mas não por minha causa, sim pelos seus vinte anos, que estão purgando o idealismo absorvido durante todo o seu período acadêmico de S. Paulo.

— Pensará então que eu...

— Não me ama?... Valha­me Deus! não disse tal! Sei, ao contrário, que o senhor me adora; me adora com fogo, com entusiasmo, com paixão, com poesia! e é justamente por isso, é porque o seu amor é forte demais, que desconfio dele. O senhor não possui em si o combustível necessário para alimentar semelhante chama durante uma existência inteira... O seu coração não é nenhuma mina inesgotável de carvão de pedra!

— Crimina­se então por amá­la demais?...

— Certamente! O homem, qualquer que ele seja só pode dar de si uma certa e determinada dose de amor; nada mais pode dar por melhor que o deseje, porque mais não tem. A grande ciência da felicidade conjugal consiste em fazer com que essa dose chegue para a vida inteira. Ora, o senhor quer dar­me toda ela de uma só vez, e eu não a quero receber por essa forma. O que não quer dizer que não aceite; aceito­o, mas em pequenas prestações. Recebendo tudo de uma vez temo fazer como os perdulários — esbanjar a fortuna e ter depois de mendigar. Para que havemos de consumir em poucos dias aquilo que nos chega para sempre?... Além de que, meu caro, o abuso traz sempre consigo a saciedade, e o tédio, o enjôo; e eu, no fim de contas...

— Aborrecia­se de mim...

— Não digo isso, mas aborrecia­me de ser amada. E esta é a pior desgraça que pode suceder a uma mulher.

— Mas então só me resta o recurso de fingir, indiferença, e amá­la em segredo, amá­la com todo o ardor da minha paixão!

— Isso ainda seria pior: além da prodigalidade, haveria o completo desperdício. Seria como se alguém para não passar por pródigo, vivesse na miséria, mas fosse às escondidas atirando fora a sua riqueza. Não! não! nesse caso seria melhor sorvê­la de um trago, e dar depois um tiro nós ouvidos.

— Por que se faz tão inocente e má?... Não vê que não pode haver termo de comparação entre o amor e o dinheiro? entre o coração e uma bolsa?... O dinheiro mede­se, conta­se, e o amor é indivisível. Como se pode conceber um registro para o coração?... O dinheiro tira­se do bolso quando se precisa e quanto se deseja; e o amor não! o amor sai por si, derrama­se, corre, como o sangue de uma ferida!

— Ora! também não se pode parar o curso do tempo, nem lhe transpor as leis, e, no entanto, há quem o esperdice, e há quem o aproveite admiravelmente...

— Não! o tempo não existe; a idéia dele é toda relativa; ao passo que o amor não tem relações, nem admite leis. É um fato real; existe! existe, que o sinto palpitar aqui dentro, não como um miserável relógio que nos mede vida gota a gota, mas louca e desnorteadamente, como neste instante! Eu te amo Ambrosina!

E Gabriel segurou­lhe as mãos com ansiedade:

— Não me repilas! exclamou; não esmague com essa indiferença e frio! Despreza­me, se quiseres, porém não me apunhales desta forma! Oh! mas por que deixaste, meu amor, que eu te tomasse as mãos? por que consentiste que eu me aproximasse tanto de ti?...

— Porque ainda não voltei a mim do seu atrevimento e da sua grosseria!

— E Ambrosina ergueu­se, indignada.

— Têm toda a razão... balbuciou Gabriel, abaixando a cabeça. Perdoa­me!

— Creio que o senhor disse que procurava por meu pai... Tenha a bondade de esperá­lo.

— Ouça­me um instante, por piedade!.

— Que deseja ainda?...

— Não diga a seu pai que estou cá. Não me sinto em estado de falar com ele.... Diga­lhe antes que vim para autorizá­lo a liquidar o negócio como entender. O que ele fizer será bem feito!

— Tenha a bondade de ver em que fica!

— Ambrosina! Não seja cruel!... dê­me uma palavra, uma só! uma esperança de ser amado! Diga o que quer que eu faça!... eu tudo cumprirei, na esperança de ser seu esposo!...

"Mil contos!" reconsiderou a filha do comendador, e sentiu um estremecimento no coração; contevese, porém com tal arte, que a sua fisionomia nada transpirou.

E, voltando­se para Gabriel, inquiriu com um ar firme:

— O senhor pode freqüentar esta casa?

— Posso.

(continua...)

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