Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Até então indiferente ao que se passava em torno de si, parecia agora participar da vida, de tudo que a cercava; gastava horas inteiras a contemplar o céu, como se só agora tivesse reparado que ele era azul e belo, que o sol o iluminava de dia, que se recamava de estrelas à noite.

Tudo isto dava em resultado, pelo que diz respeito ao nosso amigo Leonardo, um aumento considerável de amor; também ele foi o primeiro que deu fé daquelas mudanças em Luisinha. Entretanto, apesar de lhe crescer o amor nem por isso lhe nasciam mais esperanças.

Depois da declaração não se tinha adiantado nem mais uma polegada, e a única coisa talvez que o alentava, era um certo rubor que súbito subia às faces de Luisinha quando acontecia (raras vezes) que se encontrassem os olhos dela com os seus. A soma total destas adições era uma raiva que lhe crescia n’alma, aumentando todos os dias de intensidade contra José Manuel, a quem em seus cálculos atribuía todo o seu atraso.

Dadas estas explicações, voltemos a dar conta do resto da cena que deixamos suspensa.

À força de instâncias a comadre conseguiu que José Manuel referisse qual o negócio de alto segredo em que se tinha achado envolvido.

— Pois bem, disse ele finalmente, se prometem toda a discrição, contarei.

— Ora, nem tem que recomendar isso.

Com as negaças e mistérios que tinha guardado até então, José Manuel não fizera mais do que ganhar tempo para imaginar a mentira que havia de pregar: a comadre contava com isso.

Ele começou:

— Saibam vm.cês que fui um destes dias chamado a palácio...

— Ui! exclamou a comadre.

— Aí está o resultado, disse D. Maria; mas não se pagam na outra vida, é mesmo nesta.

— Resultado de quê? perguntou José Manuel surpreendido.

— De nada; continue.

José Manuel enfiou então tomando por tema aquelas primeiras palavras que lhe tinham vindo à boca, uma mentira muito sensabor, que nós poupamos aos leitores. Não foram porém satisfeitas as vistas da comadre, que queria desviar a conversa do furto da moça.

Terminada a história, José Manuel começou a instar com D. Maria para que lhe desse explicação das palavras duvidosas que há pouco havia dito a seu respeito.

A comadre, assim que viu o negócio neste pé, foi tratando de retirar-se, depois de trocar com D. Maria um olhar que queria dizer: não me comprometa.

D. Maria a princípio quis sustentar o segredo; afinal não se pôde conter, e soltou contra José Manuel uma grande alicantina, dizendo que toda a cidade estava cheia do horroroso escândalo que ele acabava de cometer roubando uma filha-família.

O homem foi às nuvens, e jurou e tresjurou que estava inocente em tudo aquilo. Nada porém lhe valeu. D. Maria foi inflexível.

Protestou de novo que se ela fosse parenta da moça o Sr. José Manuel se havia de ver em calças pardas com o negócio; e terminou por dar-lhe a entender que ele era um homem muito perigoso para ser admitido em uma casa de família.

José Manuel saiu completamente corrido e cismando em quem poderia ter sido o autor de semelhante intriga.

Quanto a D. Maria, ficou muito satisfeita, pois tendo no seu caráter um grande fundo de honestidade, julgava ter feito uma boa ação rompendo com José Manuel, que ficara com efeito, como o calculara a comadre, perdendo muito no seu conceito.

CAPÍTULO XXVII

O MESTRE-DE-REZA

Tudo que ultimamente se passara em casa de D. Maria havia posto a andar à roda a cabeça de José Manuel; conheceu que tinha ali inimigo, fosse quem fosse, pois que aquilo não passava certamente de intriga que lhe tinham armado. Restava-lhe porém saber quem seria esse inimigo; e por mais que desse voltas ao miolo não atinava com ele. Pelo gênero da intriga conheceu que a causa do que lhe faziam era seguramente a sua pretensão a respeito de Luisinha, que sem dúvida tinha sido percebida; começou a suspeitar que tinha de haver-se com um rival. Na roda que freqüentava a casa de D. Maria ninguém via que lhe parecesse poder estar nesse caso: passou-lhe muitas vezes pela lembrança o moço Leonardo; porém achava-o incapaz de se meter nessas coisas.

Assim são os velhacos!! Quantas vezes estão tocando o inimigo com as mãos, e não o vêem, e não o sentem!

Partisse porém donde partisse o golpe que o ferira, o caso é que fora dado certeiro, e a duas mãos.

D. Maria, extremosa em suas afeições, como em seus ódios, consentiria com imensa dificuldade na reabilitação de José Manuel; entretanto ele não esfriou por isso, e pôs mãos à obra. Por uma singularidade, assim como Leonardo tinha achado na comadre uma protetora à sua causa, também José Manuel achou um procurador para a sua.

Vamos já dizer aos leitores quem era o procurador de José Manuel.



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3940414243...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →